Viver por completo

20130223

De alguma maneira a gente sabe que uma experiência só é verdadeira se também é completa. Quero dizer, não há como saber, por exemplo, que uma comida é boa só olhando para ela, ou cheirando – é preciso provar, mastigar, saborear, engolir. Do mesmo modo, não há como saber se uma música ou um livro é ruim sem ouvir e ler. São coisas aparentemente sem importância, é verdade. Mas me fazem pensar que isso vale para as “grandes coisas da vida”, seja lá o que cada um entenda que seja isso.

Não é apenas a velha história de não falar do que não conhece, ou não dizer que não gosta antes de experimentar. Para mim é também não usar como desculpa o velho clichê “faça o que eu digo e não o que eu faço”. É ser coerente com o que se diz o e o que se faz. Só assim uma experiência poderia ser completa.

Por exemplo, no Cristianismo dizemos que não há como ser cristão apenas dentro de uma igreja, ou apenas em um lugar específico. Quando uma pessoa segue verdadeiramente essa religião, suas atitudes em todos os lugares e com qualquer pessoa devem demonstrar isso. Não é como uma obrigação, não é nem como se isso fosse totalmente consciente. Está mais para o fato de que a pessoa entende o mundo sob essa perspectiva e, portanto, em cada uma de suas ações – das menores às maiores – essa visão de mundo se faz presente. Acredito que seja assim em todas as religiões.

Vejo assim também uma pessoa que estuda muito alguma coisa. Uso o exemplo das Ciências Sociais, por ser minha área. Alguém que estuda a sociedade por quatro ou seis anos (ou ainda mais), passa a perceber todas as coisas que acontecem ao seu redor sob determinado ponto de vista. Mas não é apenas o perceber, isso altera suas atitudes. Altera sua disposição diante das pessoas e coisas. Ou pelo menos deveria.

Esse é o meu ponto. Se nada muda quando você segue uma fé, ou quando aprende alguma coisa, qual seria a validade disso? Ou se um aprendizado só serve para lugares e situações específicas e não para a vida como um todo, qual a diferença entre aprender e não aprender, afinal? Não sei se sou muito radical. Mas aquela ideia de que uma experiência só é verdadeira se for completa, também vale para a vida, em minha opinião. Dizer que não se deve julgar uma cultura como inferior, por exemplo, só faz sentido se, além do belo discurso, você não parte de elementos da sua própria, inferiorizando o outro para falar sobre ele. Se você não assume uma postura preconceituosa diante do que está fora da sua zona de conforto. Não é como se precisássemos gostar de tudo, participar de tudo, concordar com tudo.

Acho que viver por completo é uma mistura de experimentar coisas, se dispor a conhecer lugares e pessoas, se livrar de uma boa dose de hipocrisia e, aí sim, pensar sobre o que gosta ou não, o que concorda ou não e viver de maneira coerente com isso. Em um mundo em que emitir uma opinião para seguidores nas redes sociais parece ser muito mais importante que refletir sobre determinada coisa, esses aspectos se tornam cada vez mais difíceis de considerar. Mas é justamente por isso que deveríamos fazê-lo.

 

 

PS: O quadrinho é de um artista que gosto muito, Liniers. Para ver uma tirinha dele por dia, é só clicar AQUI.

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