Sobre 2014

Acho que eu deveria falar sobre 2013 primeiro. Mas na verdade, não tenho muito a dizer. Foi um ano normal no sentido de que nada de realmente extraordinário aconteceu. Continuei fazendo (ou tentando fazer) meu trabalho, vi  e revi amigos, fiz novos amigos, tive a chance de viajar três vezes durante o ano e tudo isso foi muito bom! Mas também tive aqueles dias chatos em que os problemas parecem ocupar o mundo inteiro, em que eu fiquei triste, em que magoei pessoas ou fui magoada por elas… Mas também não sei se tudo isso junto acaba virando uma coisa extraordinária. Costumamos esperar e desejar por grandes coisas, mas são as pequenas que, de fato, nos transformam e nos moldam. No cotidiano. Nos encontros e desencontros. No conhecimento.

Então vou deixar 2013 um pouco de lado, até porque muitas coisas sobre as quais ainda quero falar nesse humilde blog tem a ver com o ano que se passou, então voltarei nele diversas vezes. Como fazemos sempre com nosso passado. Mas também não tenho nada para dizer sobre 2014, afinal, é só o quinto dia do ano. E eu definitivamente não sou o tipo de pessoa que faz planos para um período tão longo. O que estou fazendo aqui então?

Bem, em primeiro lugar, para dizer que agora também estou no Underdot. Esse é um site que surgiu a partir da iniciativa de amigos e colegas que se conheceram há MUITO tempo em outro site, o qual tinha um fórum de discussões que participávamos (sim, antes das redes sociais, existiam mundos divertidos na Internet que se chamavam “fóruns de discussões”. No caso desse, eu participei por uns 6 ou 7 anos!). Bem, o site acabou, o fórum também, mas as pessoas continuam se falando e querendo compartilhar e debater suas ideias. De um grupo no Facebook, o Raphael, o Marlos e mais algumas pessoas que vou ser injusta agora em não lembrar, tiveram a iniciativa de montar esse site, a fim de continuar com tudo isso, de uma maneira um pouco diferente, claro. O Rapha me chamou para colaborar escrevendo algumas coisas e eu aceitei! Então toda semana vocês podem ler algo meu por lá.

Em segundo lugar, porque quero desejar um feliz ano novo para todo mundo! Com todo clichê que isso carrega, ainda acho que se desejado sinceramente, é o que melhor podemos desejar. Meus votos são sinceros. Espero que apesar dos altos e baixos, erros e acertos, idas e vindas, todos vocês que leem esse post agora possam dizer ao final de 2014 que tiveram um ano feliz.

Por fim, quero compartilhar um texto que li justamente no primeiro dia do ano, meio por acaso. Estava voltando de viagem – fui para Minas visitar a família – e sem conseguir dormir debaixo do congelante ar condicionado do ônibus, comecei a ler um livro do Rubem Alves, que ganhei de uma amiga que foi me visitar lá, a Lívia. O livro se chama “Variações sobre o prazer” e, logo no prefácio do livro, ao explicar como ele surgiu, o autor transcreve uma crônica sua, que foi o que lhe trouxe à memória todo o assunto que estará na obra. Li e reli essa crônica dentro do ônibus e achei totalmente apropriada para ler no primeiro dia do ano e levar essa mensagem pelos outros dias. Então vou transcrever ela aqui para vocês. Já me despeço e os deixo com a leitura.

“Se eu tiver apenas mais um ano de vida…”

Faz alguns anos que um grupo de amigos se reúne comigo para ler poesia. Para que ler poesia? Para a gente ficar mais tranquilo e mais bonito. Mas não me entendam mal. Já observaram os urubus – como eles voam em meio à ventania? Eles nem batem as asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito de ser chama-se sabedoria. A poesia nos torna mais sábios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confusão da vida nos perturba. Drumond, escrevendo sobre Cecília Meireles, disse: “Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traços de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos. Por onde erraria a verdadeira Cecília, que, respondendo à indagação de um curioso, admitiu ser o seu principal defeito ‘uma certa ausência do mundo’? Do mundo como teatro, em que cada espectador se sente impelido a tomar parte frenética no espetáculo, sim; mas não, porém, do mundo das essências, em que a vida é mais intensa porque se desenvolve em um estado puro, sem atritos, liberta das contradições da existência”.

Pois é isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa própria verdade, os caminhos em que mora o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia é certo que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas terapias se transformassem em concertos de poesia!

Pois aconteceu que, numa dessas reuniões, quando líamos trechos da Agenda 2001 – Carpe Diem, encontramos, no dia 2 de fevereiro, essa afirmação de Gandhi: “Eu nunca acreditei que a sobrevivência fosse um valor último. A vida, para ser bela, deve estar cercada de vontade, de bondade e de liberdade. Essas são coisas pelas quais vale a pena morrer”. Essas palavras provocaram um silêncio meditativo, até que um dos membros do grupo, que se chama “Canoeiros”, sugeriu que fizéssemos um exercício espiritual. Um joguinho de “faz de conta”. Vamos fazer de conta que sabemos que temos apenas um ano a mais de vida. Como é que viveremos sabendo que o tempo é curto – tempus fugit?

A consciência da morte nos dá uma maravilhosa lucidez. D. Juan, o bruxo do livro de Carlos Castañeda, Viagem a Ixtlan, advertia seu discípulo: “Essa bem pode ser a sua última batalha sobre a terra”. Sim, bem pode ser. Somente os tolos pensam de outra forma. E se ela pode ser a última batalha, que seja uma batalha que valha a pena. E, com isso, nos libertamos de uma infinidade de coisas tolas e mesquinhas que permitimos se aninhem em nossos pensamentos e coração. Resta então a pergunta: “O que é o essencial?”. Um conhecido meu, místico e teólogo da Igreja Ortodoxa Russa, ao saber que tinha um câncer no cérebro e que lhe restavam não mais que seis meses de vida, chegou à sua esposa e lhe disse: “Inicia-se aqui a liturgia final”. E, com isso, começou uma vida nova. As etiquetas sociais já não mais faziam sentido. Passou a receber somente as pessoas que desejava receber, os amigos, com quem podia compartilhar seus sentimentos. Eliot se refere a um tempo em que ficamos livres da compulsão prática – fazer, fazer, fazer. Não havia mais nada a fazer. Era hora de se entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenários que ele amava, ouvir as músicas que lhe davam prazer, ler os textos antigos que o haviam alimentado.

O fato é que, sem que o saibamos, todos nós estamos enfermos de morte e é preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, não seja estragada pela loucura que nos cerca.

Lembrei-me das palavras de Walt Whitman: “Quem anda duzentos metros sem vontade/ anda segundo o próprio funeral/ vestindo a própria mortalha…”.

Pensei então nas minhas longas caminhadas pelo meu próprio funeral, fazendo aquilo que não desejo fazer, fazendo porque outros desejam que eu faça. “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim” * Sou esse intervalo, esse vazio – de um lado, o meu desejo (onde foi que o perdi?); do outro lado, o desejo dos outros que esperam coisas de mim. Não, não são os inimigos que me impõem o intervalo. Inimigos: não lhes dou a menor importância. Os desejos que me pegam são os desejos das pessoas que amo – anzóis na carne. Como tenho raiva do Antoine de Saint-Expupéry – “tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos…”. Mas isso não é terrível? Ser responsável por tanta gente? Cristo, por amar demais, terminou na cruz. Embora não saibamos, o amor também mata.

Então, abandonar o amor? Não. Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo pra tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.

Aí eu comecei a pensar nas coisas que amo e que abandonei – vejam só: neste exato momento me dei conta de que, por causa desta crônica, não liguei a fonte que faz um barulhinho de água e nem pus nenhuma música no meu tocador de CD’s, a pressa era demais, a obrigação era mais forte.

Tudo bem agora, a fonte faz o seu barulhinho e o Arthur Moreira Lima toca minha sonata favorita de Mozart, em lá maior, KV 331 – coisas que amo e abandonei. Eu, mau leitor de poesia! Poesia lida e não vivida! Não levei a sério o dito pelo Fernando Pessoa: “Ai, que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor do mundo são as crianças…”

Sempre fui louco por jardins. Uns acham que eu não acredito em Deus. Como não acreditar em Deus se há jardins? Um jardim é a face visível de Deus. E essa face me basta. Não tenho necessidade de ir olhar atrás das estrelas… Escrevi inúmeros textos sobre jardins. Num jardim estou no paraíso. Mas, que foi que fiz com o meu jardim? Abandonei. A caixa das abelhinhas apodreceu, caiu a tampa e eu não fiz nada. Cresceu o mato, eu não fiz nada. Da fonte tirei os peixes, coitados… De um lugar de prazer, onde se assentar em abençoada vadiação contemplativa, meu jardim virou um lugar de passagem. Abandonei o meu amigo, por causa do dever. Para o inferno com o dever! Vou mesmo é cuidar do meu jardim. Por prazer meu. E pela alegria das minhas netas. Vou  reformar a fonte, vou fazer um balanço (que os paulistas insistem em chamar de balança…), vou reformar o gramado, vou refazer a casa das abelhinhas, vou fazer uma cobertura para as orquídeas. e mais, vou fazer uma “casinha de bruxa”, cheia de brinquedos, para as minhas netas, a Mariana, a Camila, a Ana Carolina, a Rafaela e a Bruna… Quero brincar com elas. Em breve elas terão crescido e não mais terei netas com quem brincar. “Mas o melhor do mundo são as crianças…”

Vou voltar a tocar piano – coisas fáceis: a “Fantasia”, de Mozart, a “Träumerai”, de Schumann, o Improviso op. 90, n.4, de Schubert, o prelúdio da “Gota d’água”, de Chopin, alguns adágios de sonatas de Beethoven.

Quero ouvir músicas: aquelas que fazem parte da minha alma. Pois a alma, no seu lugar mais fundo, está cheia de música. E, sem precisar me desculpar pelo meu gosto, digo que amo música erudita. Música erudita é aquela que nos faz comungar com a eternidade. As outras são bonitas e gostosas – mas são coisas do tempo.

Quero reler alguns livros. Vou relê-los porque é sempre uma alegria caminhar por caminhos conhecidos e esquecidos. É como se fosse pela primeira vez.

Não quero novidades. Não vou comprar apartamentos ou terrenos. Não quero viajar por lugares que desconheço. Eliot: “E ao final de nossas longas explorações chegaremos finalmente ao lugar de onde partimos e conheceremos então pela primeira vez…”. É isso. Voltar às minhas origens, às coisas de Minas que tanto amo… a cozinha, os jardins de trevo, a malva, as romãs e os manacás, as montanhas, os riachinhos, as caminhadas…

Há coisas que só poderei gozar em solidão. Ninguém é obrigado a gostar das músicas que amo. Entrando nesse mundo, gozarei da abençoada solidão. Lugar bom para ouvir música assim é guiando o carro, sozinho, sem precisar conversar.

Mas quero meus amigos. Não do jeito do Roberto Carolos, que queria ter um milhão de amigos. Quermo meus poucos amigos. Amigos: pessoas em cuja presença não é preciso falar…

“Estou tentando, estou começando. Espero conseguir…”

*Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Obras poéticas, p. 413.

(ALVES, Rubens. Variações sobre o prazer (Santo Agostinho, Nietzsche, Marx e Babette). Editora Planeta do Brasil. São Paulo, 2011p. 9-13.)

PS – Pensando na minha vida agora, eu só substituo, no final para “Quero novidades… Quero viajar para lugares desconhecidos”…

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