Negro Drama que não acabou

Dia desses estava voltando para casa. À frente do caminho tinha um cara em um carro chique, muito chique. Não entendo de carros, nem consegui reparar direito na marca, mas era um desses carros que a gente não vê em qualquer lugar, muito menos em um bairro de periferia, como o meu. O cara era negro. Ao meu lado, um homem fez o comentário: “Faz três dias que vejo esse carinha circulando por aí. Deve ser pagodeiro, ou está jogando futebol. Ou é outra coisa, né?”. Veio automática em minha cabeça a frase do Mano Brown, em Negro Drama: “Crime, futebol, música. Eu também não consegui fugir disso aí, eu sou mais um”. E em seguida o pensamento de como é impressionante, e não no sentido positivo, que essa ideia de que negro e pobre definitivamente não tem muitas perspectivas na vida e, entre elas, a mas provável seja o crime.

Não sei se é só uma ideia em uma sociedade que, de fato, age como se o mito da democracia racial fosse verdade, enquanto evidencia o preconceito nas mínimas ações cotidianas. Em uma sociedade em que as maiores vítimas de violência e mortes por homicídio são jovens negros, moradores das periferias. O homem ao meu lado, autor do comentário, não era um cara rico e branco. Era negro, também morador do bairro. Edi Rock, nessa mesma música diz: “Me ver pobre, preso ou morto já é cultural”. E não é apenas cultural, para a maioria das pessoas é como e onde o negro, historicamente excluído, deve estar.

Essa música foi escrita nos fins dos anos 1990, se não me engano. A frase eu escutei há duas semanas. E até quando?

Para além disso, que música essa do Racionais! Para mim é, de longe, uma das melhores.

 

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