Você sai da Sociologia, mas ela não sai de você

mafalda

Ou: Você sai da docência, mas ela não sai de você.

Da docência eu saí, da Sociologia não. Não tem jeito mesmo. Quando entrei na faculdade, eu e meus amigos costumávamos trocar impressões sobre como estudar Ciências Sociais muda a nossa vida, porque muda o nosso jeito de olhar para tudo no mundo. Quando digo tudo, é tudo mesmo, até as reuniões familiares de Natal passaram a ser, para nós, uma fonte de inúmeras análises sociológicas, antropológicas.  E que bom que é assim. Não faria sentido entrar e sair da faculdade da mesma forma, especialmente se tratando de um curso como esse. Mas, por outro lado, pode ser um fardo em alguns momentos, pois você não conseguir escapar de analisar as situações. Será que é mais ou menos assim que um psicólogo se sente quando conversa com as pessoas fora do seu trabalho?

Sobre a docência, me falavam que é a mesma coisa. Uma vez professor, sempre professor. Eu não acreditava muito. E minha experiência não foi assim tão longa. Mas depois do sonho que tive, comecei a pensar que é assim mesmo. Tive um sonho meio maluco sobre ensinar Sociologia e resolvi escrever ele num papel, para não esquecer. Depois resolvi compartilhar aqui. Os comentários entre parêntesis são meus quando li o sonho.

Sonhei que eu estava em uma escola, na escola que eu trabalhava. Mas os alunos que apareceram no sonho não eram alunos que eu conhecia. Na verdade, eu não conhecia ninguém ali. Só me lembro que estava em uma sala de aula vazia, sentada, corrigindo algumas atividades. De repente, chegou um grupo de alunos com facas e outras armas brancas me ameaçando. Eu não entendia por que estavam fazendo aquilo e, desesperada, só pedia para eles não fazerem nada e me dizer o que queriam. Uma aluna, que parecia ser a chefe do grupo, me disse: “Até parece que você não sabe! Você está falando por aí que nós não temos identidade”. (HAHAHAHAHAHAAHAHA) E eu respondi: “Mas quem contou isso para vocês? Eu não falei nada disso!”. Ela continuava me ameaçando com uma faca e disse: “Foi Fulano de Tal, da série tal que contou que você anda espalhando isso sobre nós. Vai negar agora?” E todos os coleguinhas: “É verdade”, “Assume o que você fez”, etc… (Eu nunca tinha imaginado que falar para um adolescente que ele não tem identidade seria um delito tão grave.) Tentando manter o controle diante daquelas facas voltadas para mim, eu disse: “Bem, vocês podem deixar eu explicar essa questão da identidade. Não foi bem isso o que eu disse. Por que vocês não me deixam explicar e depois tiram suas conclusões?” Eles deixaram.

Na cena seguinte do sonho estavam todos sentados prestando atenção no que eu ia falar. (Mundo perfeito, que ainda não sei se existe de verdade fora de um sonho.) Eu comecei a explicar a questão da identidade. Vou resumir agora, mas no sonho falei sobre tudo com detalhes. Expliquei que nós não possuímos só uma identidade e, sim, múltiplas. Que a vida social é como um teatro e nós somos atores representando os papéis. Então na escola, por exemplo, eles cumprem o papel social de ser um aluno, a identidade deles, ali, é aluno. Mas na casa deles, isso vai mudar, eles vão ser filhos. Na escola de futebol, eles vão ser jogadores. Nos grupos de amigos eles vão ser o gamer, o rockeiro, a esportista, etc. Ou seja, nós usamos nossas múltiplas identidades de acordo com o contexto em que estamos, dependendo do que queremos comunicar e com quem queremos nos comunicar. Além disso, nossas identidades são construídas. Até mesmo as coisas que pensamos que são tão nossas, tão particulares, são construídas socialmente. Enfim, no sonho eu dei uma aula super supimpa para eles.

No fim, todos ficaram felizes e satisfeitos com a explicação e entenderam que eu não tinha dito por aí que eles não tinham identidade. O sonho continuou, mas eu já não lembro o resto. Essa deve ter sido a parte mais importante. Acordei dando risada e pensando: nem nos meus sonhos consigo escapar disso tudo.

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2 comentários sobre “Você sai da Sociologia, mas ela não sai de você

  1. Nunca li os filósofos nem os sociólogos q você leu no seu curso… E nem acho que devemos dar todo o crédito ao que eles dizem simplesmente por terem o nome ou a fama que têm, eles podem estar errados! (mas isso é realmente outro assunto. Só estou falando isso pra você pensar que tem algumas coisas da sociologia/filosofia que devem sim sair de você. Mas não tem a ver com minha opinião abaixo, que é só opinião de leiga).
    Seu sonho é bem interessante, e melhor que os pesadelos que eu tinha. Nunca consegui chegar nessa parte de os alunos se sentarem e prestarem atenção! rssrrs
    Acho que em cada ambiente temos um papel e cumprimos uma função, como você falou. Mas há uma linha que ultrapassa isso da função social e te segue em tudo e para tudo. Para mim, essa é a linha do caráter e é isso que marca nossa identidade. Por isso acredito que a identidade é uma só e não múltiplas. Uma pessoa vive em muitos ambientes exercendo muitas funções, mas sempre será coerente com as escolhas que fez quanto à sua identidade, ao que ela decidiu ser – a identidade é uma escolha, claro que muitos fatores podem influenciar, mas sim é uma escolha, pois isso vemos na Bíblia. C. S. Lewis também diz isso no comecinho do livro Cristianismo Puro e Simples, que eu peguei da sua prateleira.
    Assista àquele filme que eu te falei, “Deus não está morto”, ele é um bom exemplo do que estou tentando explicar . O rapaz protagonista se vê diante de uma situação complicada na sala de aula da faculdade. Para acompanhar as aulas de um professor (não me lembro qual era a matéria), ele teria que aceitar como pressuposto que Deus não existe. No primeiro dia de aula, o professor pede que todos escrevam em um papel a frase “Deus está morto”, que assinem e lhe entreguem. Se o rapaz tivesse uma identidade para cada situação, ele poderia sem problemas escrever a frase e entregar. Afinal, ali seu papel é apenas o de aluno da matéria tal com o professor tal, que é ateu. Então, seria justificável sua atitude, inclusive a namorada dele tenta convencê-lo disso. Mas existe algo que está acima desse seu papel de aluno, é o caráter cristão, e que é a verdadeira identidade do rapaz, por isso ele se recusa a aceitar o pressuposto e o filme começa… Assista!

    • Mariana, o que aprendemos em Ciências Sociais (e acredito que também em Filosofia e em todas as disciplinas de Humanidades, até nas Letras que você estudou) é justamente que devemos ter um senso crítico, o que significa não aceitar como dadas, como verdades absolutas certas teorias porque foram feitas por determinados autores. Aliás, a própria ciência e não só ela, o nosso modo de nos adaptarmos e modificarmos o que nos cerca só é possível porque a gente questiona e não aceita determinadas coisas. Quando eu digo que a Sociologia não sai de mim (de todos que a estudam) é nesse sentido. Não me refiro a uma determinada teoria, mas a um jeito de olhar para a sociedade, com perguntas, com interesse em entender como funciona, com curiosidade e, mais do que isso, com certo espanto diante do que parece tão natural, mas que na verdade, são construções. Bem, eu não quero que isso saia de mim.

      Quanto à questão da identidade, essa é uma forma de ver as coisas. E eu concordo com você sobre a questão do caráter. Independente do papel social em que uma pessoa esteja, ela vai guiar suas decisões e atitudes com base nos seus valores, na suas crenças, naquilo que acredita. Falar em múltiplas identidades é diferente de falar em múltiplas personalidades! Um aluno pode questionar seu professor na sala de aula, como esse exemplo que você deu, mas ele não vai deixar de ser um aluno naquele ambiente só porque não concorda com seu professor. Ele vai se comunicar de determinada maneira, vai ter que cumprir certas obrigações que não seriam necessárias se, por exemplo, ele estivesse em clube no final de semana. E num clube no final de semana ele também pode ter atitudes que não são contrários aos seus valores, mas que não serão as mesmas que se ele for um advogado e estiver no meio de um julgamento (o que não quer dizer que como advogado ele terá um caráter diferente). Não sei se sou clara. Mas quando se fala em identidade se fala desses papéis sociais, que exigem comportamentos, modo de falar, obrigações, direitos, deveres, diferentes. Mas que não têm a ver com o caráter que ela tem.

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