Meu comentário final sobre as eleições desse ano

urna

(Com tanta bobagem pelas redes sociais e com preguiça de continuar dando atenção a elas, escrevi esse texto.)

Eu nasci em 1988. O que, obviamente, significa que passei minha infância e pré-adolescência nos anos 90. Naquela época, claro, eu tinha interesses mais sérios na vida: brincar, comer, dormir. E ler, porque eu gosto de ler desde pequena. Mas não estava preocupada com os problemas que afligem nossa sociedade.

Porém, me lembro de algumas coisas e situações. Me lembro, por exemplo, de que dinheiro era uma coisa que eu nunca via, só ouvia meus pais reclamarem da falta dele. Lembro que viajar para a cidade do lado para visitar minha avó era o luxo máximo que nós poderíamos ter. Lembro de sempre ver notícias no jornal sobre a pobreza e a seca no Nordeste e sobre a migração que, ainda nessa época, era constante. Lembro de que na escola, ainda na 8ª série nós já pensávamos em começar a estudar para entrar em uma universidade, porém com uma preocupação por saber que eram poucos que tinham acesso a ela. Essas e outras coisas eu apenas vivia, não fazia sentido para mim pensar nelas.

Depois de grande, já me encaminhando para a universidade, comecei a me dar conta de como as coisas estavam ficando diferentes no Brasil. E hoje em dia eu não apenas vejo, mas entendo e vivo algumas dessas mudanças. Depois de estudar toda minha vida em escola pública, consegui entrar numa universidade federal. Lá tive auxílios diversos, fiz uma pesquisa de iniciação científica que me encaminhou para o mestrado. Fiz o mestrado recebendo uma bolsa do governo (e ninguém me disse que era bolsa esmola, por que será?). Tenho a perspectiva de fazer um doutorado. Tenho amigos e colegas que vieram de uma situação bastante complicada e receberam auxílio para estudar fora do país. Estudei e vivi em bairros de periferia e os comentários que escutava por aí não eram de ódio, mas de esperança por verem suas vidas começarem a mudar.

Eu sei, não posso esperar que alguém que nunca teve que se preocupar em como alimentar seus cinco filhos, alguém que nunca teve problemas (financeiros, inclusive) para entrar numa universidade, alguém que nunca sofreu com o preconceito possa entender coisas assim. Nós entendemos o mundo de acordo com nossa história de vida e dos valores que aprendemos e adquirimos ao longo dos anos.

Também não posso esperar que todos compartilhem da minha perspectiva de que um governo deve ser direcionado para as pessoas que mais necessitam. E se para isso é necessário políticas assistencialistas, que seja assim. Um país desigual não pode se basear na meritocracia, porque as condições não são iguais para todos. Primeiro, é preciso criar essas condições.

É por essa razão que o resultado das eleições presidenciais me agradou. O governo Dilma merece muitas críticas e sei que as pessoas que a apoiaram não se isentam de fazer esses apontamentos. Mas votar em um candidato que representa uma mudança, sim, mas uma mudança para todo o contrário do que tem sido construído até aqui no âmbito da política social, isso não poderia ser. Aliás, no meu ponto de vista, uma mudança real e aceitável apenas seria possível com a candidata Luciana Genro. Mas isso é história para as próximas eleições, se o próprio PT não rever algumas questões necessárias. Por outro lado, problemas futuros serão enfrentados com uma bancada de deputados tão conservadora como essa eleita.

Mas me entristeci com vários comentários e atitudes. Parece que algumas pessoas perderam o bom senso. Mas me entristeço muito mais porque esse escorregão só mostra o que, no fundo, essas pessoas pensam. E para além do preconceito, da intolerância e do ódio, também fica claro que para essas pessoas política é algo que temos voltar nossas atenções de 02 em 02 anos. Se buscamos entender e participar da vida política do país, não sobra espaço para esse tipo de “argumentação” fraca. Se ocupamos os espaços de debate e participação, vemos que o confronto político é totalmente democrático e legítimo. Mas um confronto de ideias, ideologias, propostas, projetos, não um confronto pessoal.

Aos que são contra o processo democrático, aos separatistas, aos preconceituosos, aos intolerantes eu só quero dizer que nosso país já passou por momentos sombrios na ditadura militar para que o povo hoje em dia permita que esse tipo de pensamento siga adiante, embora ele tente.

Viva ao Brasil. Viva à democracia. Viva às periferias.

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