Sobre a morte

estrada

Pode parecer mórbido, mas eu penso na morte com alguma frequência. Na verdade, penso muito na vida e o quanto aproveitamos ou não os momentos, as oportunidades. O quanto estamos cientes de que tudo isso aqui é só uma fração das coisas. Consequentemente penso na morte, porque ela é uma etapa do todo. Mas por mais que eu pense, leia e tente compreender, certas coisas são simplesmente incompreensíveis. Quando perdemos alguém querido, quando vemos uma vida com tanto pela frente se acabar… Isso é incompreensível. Dói. E todas essas reflexões, tudo o que nós acreditamos ou pensamos acreditar deixa de fazer sentido. Os últimos dias têm sido assim. As ideias e os sentimentos estão meio nebulosos, confusos.

Por acaso, estava organizando alguns arquivos na bagunça do meu computador e encontrei uma pasta de textos antigos, que escrevi quando tinha outro blog. Entre esses textos encontrei um  de 2008 que fala justamente sobre esse assunto e, de alguma maneira, ele me deu certa tranquilidade. Resolvi republicá-lo.  Segue abaixo.

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Esperança em morrer

Temos receio em falar sobre a morte. Temos receio até em pensar sobre ela. Como se a morte fosse algo tão distante de nós, tão improvável. Esse receio, basicamente, se deve ao medo. Não o medo de morrer, mas sim do que acontecerá depois. Algumas pessoas têm certeza absoluta do que acontecerá (e até elas evitam pensar no assunto), porém a maioria tem muitas dúvidas. Refletir sobre a morte seria o modo de desfazer, pelo menos em parte, essas dúvidas. Ou talvez reforçar o pensamento de quem acredita na eternidade, ou até daqueles que pensam que a morte é o fim de todas as coisas.

No livro bíblico de Eclesiastes, o Sábio diz que “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.” (1) Num momento de alegria e comemoração, nos deixamos envolver pelas coisas boas da vida: comida, bebida, companhia de amigos. Nessa situação, de forma alguma pensaremos no sentido e no destino da vida. Mas não num velório, não num momento de dor. Por isso o autor dá essa preferência à “casa onde há luto”, pois lá vemos o nosso futuro, sendo impossível não pensar nele.

Mas por que pensar? Não podemos simplesmente ignorar essa parte, já que ela virá só no fim? Não podemos esperar morrer para saber o que acontecerá? De fato, “ir à uma casa onde há luto” não é uma das melhores experiências. Quem já passou por um momento desse na família, por exemplo, sabe o quão profundo dói. Ou quem já passou por crises tão intensas ao ponto de desejar morrer. Mas é assim que amadurecemos nossas idéias, nossas crenças. Ignorar a morte não deixa de ser ignorar a própria vida, pois ambas estão ligadas de tal forma, que chega a ser quase a mesma coisa.

No pensamento cristão, a ideia de vida e morte andarem juntas,nos permite entender que uma vida vivida de qualquer modo terá como conseqüência a morte eterna. Já uma vida correta trará a vida eterna. Para os cristãos, parafraseando Paulo, “morrer é lucro”. É Paulo que diz também, ao tratar da ressureição, que “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (2) Logo, morrer deveria ser encarado como algo bom, deveríamos ter esperança em morrer para, enfim, viver eternamente.

Porém, ninguém responderá prontamente “Eu!” quando perguntarem quem gostaria de morrer. Porque viver é bom, mesmo com todas as dificuldades que se possa encontrar. Mas aproveitar a vida como se ela fosse durar para sempre é se enganar e se permitir tomar decisões inconsequentes. A vida não dura para sempre. Pensar nisso, ter essa certeza não é algo ruim, ao contrário, nos faz aproveitar muito melhor todos os momentos. E pensar na morte com esperança tira de nós esse receio, substituindo-o por paz.

(1) Eclesiastes 7:2

(2) I Coríntios 15:19

 

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2 comentários sobre “Sobre a morte

  1. Muito bom! Se tem algo a acrescentar aí eu diria que a vida do cristão dura para sempre. A partir do momento que uma pessoa recebe a Cristo, ela recebe a vida eterna. Por isso, a morte significa somente trocar a casa temporária pela definitiva.

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