Inconsolável Segredo

narnia

Esse texto é da série de textos antigos, publicados em blogs do meu passado longínquo (acho legal usar essa palavra, longínquo!). Tenho vários textos desses perdidos por aqui e resolvi republicar alguns que considero interessantes ainda.

Tenho uma tatuagem nas costas. O desenho é um brasão de Narnia. Claro, as pessoas sempre perguntam o que é e o que significa. E eu sempre tenho duas respostas: você quer a versão curta e que vai me fazer parecer idiota, ou a versão longa que talvez ainda me faça parecer idiota, mas que é a explicação de verdade? Sempre acabo falando uma versão resumida, que obviamente me faz parecer idiota de qualquer jeito. O caso também é que tatuagens só têm um significado de verdade para a própria pessoa. Mas esse assunto fica para outro momento… Enfim, a resposta mais compreensível e completa que eu poderia dar, está nesse texto. Porém, mais do que explicar a tatuagem, esse texto eu escrevi, na época, para colocar em ordem as ideias que pairavam na cabeça, então não sei se ele mesmo vai ter algum tipo de significado para quem leia. Mas quis republicar, então aí está.

 

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Inconsolável Segredo

Há vários escritores que de algum modo exerceram (e exercem) influência sobre mim. Mas talvez com poucos eu tenha me identificado tanto quanto com C. S. Lewis. Penso que isso se deve ao fato de que antes de ler qualquer coisa dele, eu já tinha algumas ideias e opiniões parecidas com o que ele escreveu e que eu nunca poderia expor de forma tão clara e compreensível.

Uma dessas idéias, que na verdade é um dos principais eixos de seu pensamento, se trata do que Lewis chama de “inconsolável segredo” de cada um de nós. Para Lewis, somos seres que carregamos um desejo profundo por algo que está além de nós, da nossa própria vida na Terra. Não dá para contar esse segredo porque nosso anseio diz respeito a algo que nunca pudemos experimentar. Entretanto, todas as nossas experiências, de algum modo, fazem transparecer esse anseio. Por não saber a que esse desejo se refere, buscamos satisfazê-lo em outras coisas que, ainda que nos tragam alguma satisfação, não passam de uma relação simbólica com o que de fato desejamos e nos daria satisfação completa.

Segundo C. S. Lewis, nosso objeto de anseio é o Céu, ou o Paraíso. Não necessariamente o céu como descrito na Bíblia (aquelas representações também seriam relações simbólicas), mas um lugar em que aquilo que consideramos belo e agradável e as representações subjetivas que criamos ficam para trás e encontramos o que verdadeiramente nos satisfaz, pois nenhuma felicidade natural poderia suprir. Nosso anseio por esse lugar não nos diz que um dia estaremos lá. Lewis utiliza uma analogia interessante: o fato de termos fome não nos diz que teremos comida para comer, mas indica que somos seres que possuímos essa necessidade, por vivermos em um mundo em que ela pode ser suprida, em que há condições para isso. Do mesmo modo, o desejo que temos por esse lugar distante de nosso tempo e espaço, que não conhecemos ou experimentamos, embora não diga que iremos experimentar um dia, é um indício de que ele existe.

Pensando em tudo isso, Nárnia, o país que Lewis inventou, com todas suas criaturas fantásticas, pode ser entendida como uma representação desse anseio. Por mais que o autor tenha dito que as crônicas de Nárnia sejam unicamente histórias de fantasia, a leitura delas nos permite fazer uma ligação direta com os pensamentos que Lewis desenvolveu sobre o Paraíso em outros de seus escritos. Considero possível os dois pontos de vista sobre Nárnia: a fantasia, com toda sua mágica e beleza, e a analogia com certas correntes filosóficas e, pela experiência pessoal de Lewis, com o Cristianismo. E  por esse motivo Nárnia tem um significado tão profundo: é o objeto do nosso anseio. É a resposta para nosso inconsolável segredo.

 

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Um comentário sobre “Inconsolável Segredo

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