Universidade para quem?

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Há alguns dias vi uma entrevista com alunos de escolas públicas que têm entrado em universidades públicas graças às novas políticas para inserção desses jovens no ensino superior. Várias coisas me chamaram a atenção. Na verdade, várias coisas fizeram com que eu me identificasse naquelas falas, por ter eu mesma uma formação numa universidade pública e ser oriunda de escola pública no ensino básico.

Entre tantas questões possíveis uma me chamou atenção, a dificuldade de se descobrir e se posicionar em um universo totalmente diferente do que tinham antes. Acredito que essa é uma dificuldade que todos os jovens têm. Principalmente agora que entram cada vez mais cedo em uma universidade, ou seja, acabam de sair da escola – com um ritmo e uma estrutura bem diferente, onde não há  autonomia para o aluno  – e chegam em um lugar onde devem fazer tudo por conta própria. É um choque, sem dúvidas. Mas imagine que, além disso, uma pessoa que estudou toda a vida em escola pública vai encontrar na universidade colegas que tiveram oportunidades que ele nem sonhou em ter, como fazer várias viagens dentro ou fora do país; ter concluído inúmeros cursos de línguas e esportes; já possuir um carro e ter condições financeiras para alugar um lugar para morar perto da universidade… Enfim, pessoas com uma boa situação econômica. Como se identificar em um lugar onde tantas pessoas ao seu redor têm uma realidade totalmente diferente da sua? Isso piora um pouco dependendo do curso escolhido.

Não é novidade nenhuma que muitos jovens abandonam a universidade porque não conseguem se incorporar totalmente a ela. Isso é resultado de uma série de problemas sociais e,  no caso das universidades públicas, da falta de mais políticas e auxílios que garantam a permanência desse aluno que muitas vezes não pode deixar de trabalhar para somente estudar, não tem recursos para se manter gastando uma quantia diária razoavelmente alta com transporte e alimentação, enfim, não pode se bancar sozinho com todas as exigências da vida universitária. Mas outro motivo de evasão é também (ou talvez justamente pelos motivos citados) essa não identificação, a sensação de não pertencer àquele lugar. Especialmente se a pessoa decide que, afinal, ela gosta da academia e quer ser um acadêmico, um investigador.

Eu tive (acho que ainda tenho) esse sentimento que é compartilhado por alguns colegas meus. De pensar que o “natural” da sua vida é escolher um curso superior, pois hoje em dia isso é absolutamente necessário. Então decide tentar em uma universidade pública, mas se não der, OK, vamos  nos endividar pagando uma particular mesmo, terminar o mais rápido possível para conseguir um emprego e, finalmente, (tentar) dar um outro rumo para sua vida, para a vida dos seus pais… Isso é o que muita gente tem em mente quando entra na universidade.

Quando eu digo que consegui terminar meu curso de graduação em 4 anos, há quem se surpreenda: “nossa, mas você não tinha mais o que fazer além de estudar, não é? Ninguém termina em 4 anos”, etc… E eu simplesmente respondo: não, é que eu não poderia “me dar ao luxo” de tentar me manter financeiramente por mais tempo dentro da universidade. E quando me vi fazendo iniciação científica, me interessando pela pesquisa, depois fazendo um mestrado, meu pensamento às vezes era do tipo: o que eu estou fazendo aqui? Olhava outras pessoas, colegas de turma, e pensava: isso é para elas, não é para mim. Ainda bem que isso não me fez desistir, mas faz a muitos. Pensando desde outra perspectiva, sei que muitos colegas da universidade  e até professores pensam exatamente da mesma maneira sobre as pessoas nessa situação: “o que essa pessoa está fazendo aqui? Esse lugar não é para ela”.

O que eu quis dizer escrevendo esse texto foi que ainda há muito o que mudar nas universidades para que o acesso (completo e definitivo) a ela deixe de ser exclusivo, deixe de pertencer a apenas alguns e passe, de fato, a pertencer a todos. E fico muito feliz quando conheço histórias parecidas com a minha, de pessoas que decidiram ocupar um lugar ali porque sim, porque é o lugar delas, sim. Felizmente chegaram até ali e por isso devem continuar. De alguma forma, esses exemplos são incentivos àqueles que talvez pensam que a universidade e a carreira acadêmica não é para eles. Por isso essa entrevista que vi me fez pensar tanto e ter vontade de compartilhar esses pensamentos. Com o desejo que as transformações pelas quais estamos passando nesse aspecto não parem por aqui.

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