Montanhas e Metrópole

 

Bogotá - Foto de Sarah

Bogotá – Foto de Sarah

Sempre pensei que viajar deveria ser mais que uma experiência turística. Pra mim, um turista é aquele que viaja para estar em lugares diferentes, visitar os pontos mais legais da cidade (segundo algum guia, provavelmente), e aumentar sua lista de lugares em que esteve. Um turista não se aprofunda muito na experiência de viajar, ao contrário de um viajante, que mais que estar em um lugar, procura conhecer, ou melhor, vivenciar a experiência de estar nele. Digamos que a experiência de um viajante é um pouco mais complexa, porque ele sabe que ir para um lugar diferente da sua casa, com uma cultura diferente, com um modo de vida que não é o que está acostumado, com um idioma diferente, no caso de viagens pra outro país, pode ser uma grande aventura de auto descobrimento.

Essas minhas ideias foram reforçadas depois que li “A arte de viajar”, do filósofo Alain de Botton, livro que recomendo especialmente para quem gosta de viver essas grandes aventuras. Nesse livro, o autor fala sobre diversos aspectos de viajar, por exemplo, o da expectativa criada e o da viagem em si, os lugares de passagem e espera, a curiosidade. Um dos pontos mais interessantes do livro é quando ele fala que viajamos muitas vezes em busca do exótico, daquilo que é bem diferente de nós, mas ao mesmo tempo, buscamos por aquilo que é semelhante, buscamos uma maneira de nos encontrarmos. Acho que esse foi o caso da minha última viagem, a Bogotá. Sempre me lembro desse livro quando vou viajar, tento me lembrar de observar com atenção e levar em consideração todas essas ideias. Mas na maioria das vezes eu me esqueço. Viajar é tão empolgante que, claro, não fico filosofando sobre isso enquanto estou ali. Mas na volta eu consigo organizar melhor todos os pequenos e rápidos pensamentos que passaram pela minha mente naquele momento.

Estive em Bogotá por apenas 03 dias e foi como um momento de recarregar as energias. Na semana anterior a essa viagem, me sentia um pouco desanimada com tudo, uma daquelas fases que a gente não está muito legal. A viagem era a única coisa que me animava, apesar de eu não esperar muita coisa. Não porque Bogotá não seja uma cidade cheia de lugares para descobrir, mas porque eu a imaginava como ela é: uma grande cidade, muito parecida com a que eu vivia antes, São Paulo. Na minha cabeça, Bogotá aparecia como uma cidade extremamente comum, com  “um estilo” com o qual eu estava acostumada, mas que eu precisava conhecer antes de voltar a viver no Brasil, afinal, seria um absurdo isso de não ir até lá, depois de tantos meses morando na Colômbia. Então minha expectativa de viagem era de conhecermos os pontos principais, devido à falta de tempo, dar uma volta pela cidade, experimentar alguma comida típica de lá e pronto. Isso já me animava, sair de casa, ir pra um lugar diferente daqui. Mas eu não esperava que o fato de Bogotá ser, sim, uma “cidade comum” iria transformar essa experiência de viagem pra mim.

Há 10 meses estou morando em Cartagena, que é uma cidade bem pequena, se comparada a São Paulo. Para além de questões culturais, o ritmo de vida aqui é outro, obviamente. Sem falar no calor, o sol sempre forte, as praias… Tudo isso, que é meu cotidiano agora, na verdade, é bem diferente do que vivi toda minha vida. Minha infância e parte da adolescência, passei em Minas Gerais, que não tem mar, mas tem montanhas por todos os lados.  Desde que me mudei pra São Paulo fazia falta olhar o horizonte e ver as montanhas, não um monte de prédios. Aqui também não tem montanhas. Depois de Minas, fui morar em São Paulo, essa cidade que poderia ser um país e me acostumei (talvez mais do que deveria) a essa coisa urbana, que vou chamar de coisa agora porque envolve muito mais do que eu poderia explicar no momento. Ou seja, Cartagena é diferente de tudo o que eu vivi, de todas minhas experiências. E não é que viver uma nova experiência seja ruim, de jeito nenhum, mas é que em alguns momentos dá uma saudade das anteriores.

Quando cheguei a Bogotá foi uma sensação um pouco parecida com voltar pra casa. Não foi uma viagem em que eu descobri milhares de coisas diferentes, vi o que eu nunca tinha visto antes, fui em lugares exóticos, nada disso. Mas exatamente por isso foi uma viagem muito boa. Quando estava cercada de todas aquelas montanhas, me senti aconchegada, lembrei de Minas. Olhava pro horizonte e via montanhas de novo! Quando andávamos pela cidade, pegando os ônibus da Transmilênio, quando fazia aquela garoinha chata, quando eu via todos aqueles graffitis e as pessoas andando pra lá e pra cá, lembrei de São Paulo, me senti em São Paulo. Bogotá foi extremamente familiar pra mim e por mais que eu imaginasse as semelhanças, não poderia prever esse sentimento, que me fez bem demais.

Viajar a Bogotá e ter contato com o familiar, transformou minha experiência de turista em uma experiência de viajante. Ao contrário de ser só mais um lugar na lista de lugares que conheço e vou conhecer, se tornou um momento marcante pra mim. De fato, viajar é sempre um momento de auto descoberta, mesmo que a gente não busque por isso, eu acho.

Sobre os lugares que fomos, fica pra próxima postagem.

 

 

 

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Um comentário sobre “Montanhas e Metrópole

  1. Pingback: Cinco lugares para conhecer em Bogotá | Sarices

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