Não precisa escrever de um jeito difícil

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Uma coisa que sempre me incomodou na vida acadêmica foi certa cobrança – direta ou indireta – de escrever de determinado jeito. Muitas vezes, não importa nem que você esteja falando algo interessante e muito original, basta que você coloque seu texto em determinado padrão de escrita, que tudo fica lindo. Algo que poderia ser dito em duas frases com informações completas, é dito em um parágrafo bem rebuscado.

Particularmente, nunca me dei bem em escrever dentro dos padrões acadêmicos. Mesmo com um dicionário de sinônimos do lado, não consigo usar palavras e estruturar frases de uma maneira, digamos, muito cheia de enfeites. Acho que isso é influência de tantos romances, histórias de ficção, contos e crônicas que li durante a vida, minha escrita é sempre meio literária. Felizmente, não tive problemas com isso nos meus principais trabalhos de final de curso da graduação e mestrado.  Pelo contrário, minha escrita possivelmente foi mais elogiada que o conteúdo do meu trabalho ( isso é bom ou ruim?). Sem falsa modéstia, eu nem acho que escrevo tão bem assim, apenas tento falar de um jeito que eu mesma entenderia se fosse outra pessoa explicando o assunto para mim (faz sentido?). Mas isso não é mérito meu,  é influência das minhas leituras literárias e acadêmicas. É influência da minha querida Antropologia e todos os debates feitos por intelectuais como Clifford Geertz, que questionam o papel da escrita no trabalho acadêmico.

Uma escrita mais simples e direta não indica um conteúdo pobre e bobo, pelo contrário, pode demonstrar grande complexidade. Não é preciso escrever de um jeito difícil para explicar algo só porque se trata de um trabalho acadêmico. Conheço pessoas que já se habituaram tanto a isso, que não apenas escrevem, falam assim!

Lembrei desse assunto porque estou estudando e  tenho lido alguns artigos e livros e me mata ler dois parágrafos cheios de frases e palavras complicadas, para se dizer algo que poderia ser dito em um parágrafo e de maneira muito mais simples. E fico tentando entender a necessidade disso.

Aí lembrei de uma coisa que o Rubem Alves fala no livro “Variações sobre o prazer”. Na verdade, é uma nota de rodapé, quando ele fala sobre a escrita do seu próprio livro e faz essa mesma crítica à forma utilizada pelos meios acadêmicos para falar sobre as coisas e como a ruptura com essa forma, quase sempre, resulta em expulsão do meio. Resolvi compartilhar essa notinha. Ele diz assim:

Sobre essa ruptura com a linguagem dos saberes, seu preço é ser excluído da confraria que a fala. O que define uma confraria – acadêmica, religiosa ou política – é a sua linguagem.

O uso ortodoxo dessa linguagem tem, como função primeira, não a comunicação de conhecimento novo, mas a função de confirmar que o falante “pertence” ao conjunto. Uma defesa de tese tem a função de decidir se o postulante pode ou não ser admitido na confraria. Não conheço ninguém que, havendo pertencido à confraria dos scholars, tenha rompido com ela de maneira mais radical que Nietzsche. Nenhum dos seus livros seria aceito em nossas universidades sequer como tese de mestrado, muito embora seja possível escrever teses eruditas sobre eles, bastando, para isso, que o estilo selvagem de Nietzsche seja moído e interpretado pela linguagem ortodoxa.

No fim, a impressão que dá é que você é avaliado muito mais pela forma que pelo conteúdo. Não é contraditório isso? É claro que todo trabalho exige certa apresentação, ninguém vai escrever do jeito que fala com o amigo. Mas não precisa exagerar.  Isso de certa maneira é até uma forma de exclusão, já que quem vai entender a linguagem acadêmica são os próprios acadêmicos. Mas as investigações – especialmente as realizadas em universidades e institutos públicos – não deveriam estar ao alcance de qualquer pessoa que quisesse ler? Mais uma contradição.

Eu sou a favor do movimento: nóis pode escrever do jeito que nóis quisé.

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