Uma carta sobre desistir

Querida amiga,

Não tenha medo de desistir. Sei que você pode pensar que não faz bem, mas a verdade é que não há nenhum problema em não querer seguir adiante com alguma coisa. Pode ser um relacionamento, um curso, uma carreira profissional, um sonho antigo. A gente muda o tempo todo, então não podemos esperar que os nossos gostos e vontades continuem sendo sempre os mesmos, você não acha? Às vezes sim, continuamos querendo certas coisas por muitos e muitos anos, “pra sempre”, seja lá o que o sempre signifique. Mas também podemos parar de gostar de algo, ou podemos achar outros caminhos que começam a parecer mais interessantes…

Eu sei, entendo que desistir “soa mal” aos ouvidos dos outros e aos nossos próprios. Fica parecendo que não tivemos coragem ou força o suficiente para ir até o fim. Fica parecendo que não sabemos o que queremos da vida (mas quem é que sabe?), ou que somos inconsequentes. Sim, porque o que mais ouvimos nesses casos são coisas do tipo, “vai sair da faculdade no último ano? Porque não faz um esforcinho pra terminar e depois faz outra coisa?”, ou “abandonar um emprego desse? E onde você vai conseguir outro assim?”, ou ainda, “não quer mais trabalhar na tua profissão? E vai fazer o que da vida?”. Enfim, desisitir sempre parece a pior das opções. E aqueles que falam sobre “aguentar mais um pouquinho” é porque não sabem às vezes que esse pouquinho pode ser uma eternidade quando uma pessoa está infeliz em determinada situação.

Eu vejo duas situações possíveis sobre desistir, veja se você concorda comigo. A primeira é que você queira desistir porque tem algum tipo de medo de seguir adiante, por exemplo, pela incerteza do futuro, se o que você planeja vai dar certo, se você está no caminho certo pra atingir o que deseja. Se você está segura de que gosta do lugar/situação em que está e quer continuar aí, mas, ao mesmo tempo, tem medo do futuro, então não desista. Porque nesse caso você apenas estaria abandonando algo que gosta por uma incerteza que talvez nem se concretize. A gente não conhece o futuro, claro que algumas coisas podem não sair como imaginamos, mas se no momento você sabe que é isso que quer, então tente não pensar muito no futuro, faça o que tem pra fazer agora.

Mas tem a segunda situação, lembra? E nessa situação você talvez esteja desconfortável, infeliz, insatisfeita com o que está fazendo, ou onde está, ou com quem está. Se você não quer mais nada disso, se você se interessa por outras coisas e é difícil pra você até mesmo acordar todos os dias pensando algo do tipo, “ai, mais um dia nessa nessa situação”, então, nesse caso desista. Sei que dá um frio na barriga pensar no depois, em como vai fazer sem dinheiro, em ter que começar algo do zero, fazer outro curso, mudar de trabalho, porque tudo isso também é incerto. Mas  eu, pelo menos, prefiro a incerteza que vem com uma possibilidade de que tudo vai dar certo a permanecer infeliz em uma situação na qual não quero estar. Não vale a pena, sabe? A vida é curta demais pra não fazer o que se quer fazer. E não vale a pena ficar assim por receio de desistir, por pensar que desistir é algo ruim. Desistir pode ser bom, saudável, pode ser a melhor coisa que você faça na vida.

Eu não sou boa pra aconselhar ninguém e acho que as pessoas tomam suas decisões com base também na sua história de vida, ou seja, a mesma decisão talvez não tenha o mesmo resultado pra duas pessoas diferentes. Mas, ah, não custa levar isso em conta na hora de tomar sua decisão. Considere o que é mais importante pra você no momento. Eu já passei por algumas situações em que precisei decidir se deveria ou não desistir de alguma coisa e tenho chegado à conclusão de que sabemos que tomamaos a melhor decisão quando não fica nenhuma pontinha de incômodo martelando na cabeça da gente. Quando a gente de verdade se sente bem por dentro, mesmo que seja uma decisão que para as pessoas de fora pareça errada ou não faça sentido. No fim, não importa que decisão você tome, desde que se sinta bem com ela. Apenas não se esqueça que se quiser desistir, não há nada de errado nisso.

Com carinho,

Sarah.

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5 comentários sobre “Uma carta sobre desistir

  1. Pingback: Nem sempre dá tudo certo |

  2. Eu adoro esse texto Sarah, tinha lido antes, mas estou numa vibe condizente hoje e lembrei dele, daí corri aqui pra ler. Pra mim, que cresci sendo ensinada a nunca desistir, ele é um cortar de algemas.

    • Gesa! Fico muito, muito feliz de ler isso! Espero que você tome a melhor decisão!
      Acho que a maioria de nós cresce sendo ensinada a não desistir, cresce achando que isso é uma fraqueza. Mas nem sempre, né? Às vezes é necessário e tudo bem com isso.
      Um beijo!

  3. Concordo com tudo, é muito bom o texto, deixa aberto às idéias e decisões que cada um pensa de suas decisões. Más fica uma dúvida. Em qual faixa etária eu devo me enquadrar para tomar estas decisões? Em que estado civil estes conselhos ou atitudes ou decisões devem ser tomadas? As vezes nós queremos dar um ponto final em muitas decisões que tomamos más e as consequências disto tudo? Devemos pensar só em nós ou há outras pessoas e situações que faz parte destas decisões. Tudo podemos fazer mas as vezes nem tudo é conveniente. Temos a liberdade de fazermos o que queremos más existe momentos e situações que não convêm, então o que fazer? Como seria bom se pudéssemos virar a página e estaria tudo mudado em nossa vida. Uma coisa e poder tomar uma decisão para a nossa própria vida outra coisa e aconselhar alguém tentando colocar as nossas vontades, decisões ou coisa parecida na vida delas. Como seria bom se todos pudessem tomar as decisões que queiram tomar e ao final se sentirem bem consigo mesmo, sem traumas, sem arrependimentos, sem frustrações, sem choro, etc. etc etc. Enfim quando a bíblia nos ensina que devemos amar ao próximo como a nos mesmos ela não está dizendo que temos que amar a nós mesmos em primeiro lugar e ao próximo depois. Isso depende daquilo que temos como princípio em nossa vida.

    • Não acho que exista uma faixa etária, um estado civil, enfim, uma fase da vida em que a gente possa tomar uma decisão desse tipo. Nunca é cedo ou tarde demais pra se dar conta de que está numa situação em que não se quer estar e talvez mudar o rumo disso.
      É claro que toda atitude traz consequências. Como eu falei no texto, não temos nenhuma garantia de que as coisas saiam como imaginamos, cada um é diferente, tem uma história de vida diferente, prioridades diferentes e pode ser que uma decisão seja boa para uma pessoa e não seja tanto para outra. A questão que eu quis colocar não é essa, não quero dizer o que cada um tem que decidir sobre sua própria vida. Apenas quis mostrar que existem opções a se considerar e desistir é, sim, uma opção e não tem nada de errado com isso.
      Agora, claro que quando se toma uma decisão se aceita também tudo o que ela vai trazer junto, se a princípio vai magoar alguém, ou se vai trazer à tona traumas e arrependimentos, isso é ruim, mas sinceramente? É o de menos. Porque a partir do momento que somos sinceros com a gente mesmo, sobre o que queremos viver e onde queremos estar, também somos sinceros com os outros e essas dificuldades aos poucos são superadas. Você falou sobre amar ao próximo, mas para amar ao próximo eu preciso, primeiro, me amar. Eu preciso estar bem comigo mesmo pra conseguir levar às outras pessoas o amor. Se eu carrego dentro de mim frustrações, infelicidade, medo, o que eu posso oferecer para o outro?
      Não é questão de egoísmo, é questão de ser uma pessoa completa, que se conhece e por isso tem muito mais possibilidades de viver uma vida plena. E não é questão de colocar nossa vontade, mas de mostrar opções. No fim, cada um vai seguir seu próprio caminho, invevitavelmente.

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