Sim, todas e todos deveríamos ser feministas

feminismo

 

Quem me conhece já sabe que sou feminista. Mas acho que nunca parei para falar sobre isso realmente. Mas também não é uma coisa que vou fazer agora. Apenas queria compartilhar algumas coisas que considero relevantes especialmente para quem acha que feminismo é oposto do machismo, ou quem acha que não deveríamos falar em luta pelo direito das mulheres, mas sim em luta pelo direito dos seres humanos (?), ou quem insiste que as reivindicações das mulheres não passam de vitimismo. Também acho relevante para quem até reconhece que o machismo existe, é violento e mata (vejam alguns dados AQUI), mas não percebe que o machismo também está em situações e atitudes cotidianas.

Para começar, compartilho acho que pela milésima vez (entre postagens aqui e nas redes sociais) essa palestra da Chimamanda Ngozi Adichie, em que ela fala por que todos nós deveríamos ser feministas. Para quem não conhece a Chimamanda Adichie, ela é uma escritora nigeriana, um dos nomes importantes da literatura contemporânea. Entre livros de ficção e romances, ela também tem um livro bem curtinho, que é uma adaptação dessa palestra, chamado “Sejamos todos feministas”, vale a pena ler. Nessa palestra ela fala sobre como ela se descobriu feminista, sobre o machismo na criação das crianças e na vida cotidiana,  sobre a questão cultural nisso tudo, e seu otimismo em ver que as coisas podem mudar. Enfim, é meia hora de vídeo. Meia hora que será muito bem empregada na vida de todo mundo que assistir. Eu já assisti várias vezes esse vídeo e não me canso de ver como ela fala de maneira tão didática sobre questões do feminismo. Aí está o vídeo:

 

Depois de ver o vídeo e pensar em questões como essas, você pode falar: estou totalmente de acordo com ela. Ou você pode dizer: não entendi algumas coisas, preciso pensar mais sobre isso de ser feminista. Você quer fazer um teste para descobrir se você é feminista ou não? Cynthia Semíramis criou um, que está disponível AQUI na página dela, com 10 perguntinhas básicas sobre o que você opina do direito das mulheres. As perguntas são:

Teste: você é feminista?

1. Você concorda que uma mulher deve receber o mesmo valor que um homem para realizar o mesmo trabalho?
2. Você concorda que mulheres devem ter direito a votarem e serem votadas?
3. Você concorda que mulheres devem ser as únicas responsáveis pela escolha da profissão, e que essa decisão não pode ser imposta pelo Estado, pela escola nem pela família?
4. Você concorda que mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens?
5. Você concorda que cuidar das crianças seja uma obrigação de ambos os pais? ?
6. você concorda que mulheres devem ter autonomia para gerir seu dinheiro e seus bens?
7. Você concorda que mulheres devem escolher se, e quando, se tornarão mães?
8. Você concorda que uma mulher não pode sofrer violência física ou psicológica por se recusar a fazer sexo ou a obedecer ao pai ou marido?
9. Você concorda que atividades domésticas são de responsabilidade dos moradores da casa, sejam eles homens ou mulheres?
10. você concorda que mulheres não podem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em um relacionamento afetivo?

Se você respondeu sim para essas perguntas, você está assumindo um ponto de vista feminista. “Ah, mas essas coisas citadas devem ser direito de todo mundo, não só das mulheres”. Sim, mas você já viu esses direitos serem negados a algum homem? Esses são problemas muito importantes tratados pelo feminismo, porque se trata de direitos que foram e muitas vezes ainda são negados às mulheres.

Mas existem diferentes maneiras de lutar pelos direitos das mulheres e existem outras questões de exploração que devem ser consideradas dentro do movimento feminista. Eu, por exemplo, me identifico mais com o feminismo que propõe um olhar interseccional. Segundo esse ponto de vista, se reconhece que existem outros tipos de exploração que não devem ser ignoradas. E por isso não se pode dizer que todos os homens são inimigos das mulheres. Sobre esse assunto, compartilho um texto ótimo da Djamila Ribeiro publicado AQUI e um pequeno trecho para exemplificar.

Ser feminista interseccional significa perceber, por exemplo, que nem todos os homens podem ser tratados da mesma maneira. Homem negro sofre racismo e pode sim ser discriminado por uma mulher branca nesta questão. Da mesma forma que um homem negro pode ser machista com uma mulher branca. Mulheres não são sempre vítimas e podem sim oprimir quando estão em uma posição de privilégio.

Ter isso em mente significa que não existe machismo? Não, significa que todas as mulheres sofrem machismo, mas, dependendo de sua posição social, podem oprimir outros grupos. Essa perspectiva de que todas as mulheres sofrem igualmente é desumana, porque essa universalização da categoria mulheres foi feita tendo como base uma mulher branca, heterossexual e de classe média. O racismo cria uma hierarquia de gêneros e ao dizer que todas sofremos iguais, quando sabemos que não, perpetuamos essa representação que deixa de fora muitas mulheres e cria uma hierarquia de vidas; escolhe quais vidas devem ser representadas e conseqüentemente salvas.

Da mesma forma é preciso perceber que nem todos os homens sofrem de maneira igual. A realidade de um homem branco e de classe média não é a mesma da de um homem negro de periferia. Vivemos num Estado genocida que assassina homens negros, em que milhares são vítimas da violência policial. Essa visão simplista de que mulheres e homens sofrem de modo igual precisa ser superada. Falta um olhar interseccional.

Por fim, quem me conhece também sabe que eu sou cristã. E não acho que o feminismo é incompatível com o cristianismo, como alguns defendem. Então para quem também é cristã (o) e acha conflitivo ser feminista, o convite é para pensarmos isso juntos. Se você frequenta uma igreja, por exemplo, poderia tentar discutir esse tema em algum espaço. Recentemente conheci um projeto interessante sobre feminismo e cristianismo, que é o Projeto Redomas. Vale a pena conhecer. Nesse texto, por exemplo, se discute sobre como “o sexismo e o patriarcado excluem as mulheres da comunhão humana e eclesiástica e por isso são um pecado coletivo contra as mulheres e contra Deus”.

Adão e Eva não só foram criados à mesma imagem e semelhança como foram igualmente envolvidos na mesma benção: os dois eram importantes. Mesmo em Gênesis 2, o valor de inter-relacionar está presente: no versículo 18, a ideia de ajudadora correspondente não remete à ideia de submissão como insistimos em dizer.  “Ajudante”, “auxiliar”, ou mesmo a ideia de ajudar e socorrer é empregada para o auxílio aos miseráveis e destituídos. A mesma expressão é usada com frequência no Antigo Testamento para falar de Deus trazendo ajuda para o seu povo.

Embora os discursos nem sempre expressem essa visão de que as mulheres são inferiores, na prática é isso que a maior parte das igrejas incorpora. Esse modelo apresenta uma visão que não é necessariamente bíblica, ao contrário nos provoca a pensar que esteja contra o plano de Deus para a criação. Teria Ele criado o mundo para que houvesse uma hierarquia entre suas criaturas? Ou para uma dinâmica relacional e coexistente?

 

Enfim, acho que vocês podem ter uma ideia de como eu tenho pensado o feminismo a partir dessas coisas que compartilhei. Mas o objetivo é também, como eu falei no princípio desse post, de apontar questões que considero relevantes a pessoas que ainda não sabem muito bem por que o feminismo tem a ver com suas vidas. Espero que gostem das citações, se interessem e pesquisem muito mais sobre o tema!

 

 

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3 comentários sobre “Sim, todas e todos deveríamos ser feministas

  1. Pingback: Cultura do estupro, machismo e feminismo: o que isso tem a ver com você? |

    • Deborah, obrigada pela visita! E obrigada também pelo convite para participar do grupo, já topei e deixei minha solicitação lá! Citei o Redomas porque é realmente um projeto muito legal e super importante!

      Um abração!

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