Diferenças culturais que me marcaram na Colômbia

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Foto: Sarah F. Toledo

Estou a poucos dias de voltar ao Brasil para passar um tempinho lá. Não vai ser uma volta definitiva por enquanto, adianto aos curiosos, mas passarei um bom tempo matando a saudade da minha família e resolvendo várias questões. Então achei relevante fazer mais um post sobre minhas impressões sobre morar na Colômbia.

Meus amigos, colegas, família e pessoas que sabem que moro aqui sempre me perguntam como é a vida no cotidiano, se tem algo de muito diferente ou comum com a vida no Brasil. Quando conheço pessoas aqui também me fazem a mesma pergunta, sobre as semelhanças e diferenças. Eu falo a verdade, que os dois países são muito parecidos culturalmente, exceto pelo idioma não foi uma mudança muito radical. Mas, sim, existem pequenas diferenças que a princípio são um pouco marcantes e depois a gente se acostuma. Vou falar de algumas delas agora.

Antes disso, só para esclarecer, no título eu falo de Colômbia e em  alguns momentos no texto falo em relação ao Brasil, mas seria muita pretensão minha querer falar de hábitos de dois países inteiros! Minha base de comparação é considerando os lugares que morei no Brasil, que são São Paulo e Minas Gerais e o lugar que moro aqui na Colômbia, que é Cartagena de Indias. Não posso falar de lugares em que só fui para passear, pois não foi tempo suficiente para fazer tantas observações assim. Também não tenho a intenção de fazer nenhum juízo de valor, do tipo: “isso é melhor que aquilo”, são hábitos diferentes, não existe melhor ou pior. Mas, claro, existem algumas coisas que gosto menos ou mais. Então vamos à lista.

 

1 – A questão da comida

Já falei antes aqui no blog que as comidas da Colômbia são praticamente as mesmas das do Brasil. Não é essa questão da comida que me chamou tanta atenção aqui e sim a relação, se é que posso falar assim, que se tem com ela. Primeiro, percebi que as pessoas aqui comem coisas muito mais variadas que no Brasil. Não queria usar essa palavra, mas não consigo explicar de outro jeito, as pessoas aqui são menos enjoadas para comer. Claro que isso é uma generalização tanto daqui quanto do meu país, mas pelo que eu tenho observado, justamente de modo geral, todo mundo come de tudo sem fazer muita cara feia.

Segundo, a sopa aqui é um prato extremamente comum e popular. Existem vários tipos, algumas mais típicas de determinadas regiões do país. Toma-se como entrada, como refeição principal, não importa: toma-se muita sopa! Inclusive em Cartagena, que é uma cidade extremamente quente. O calor nunca é desculpa para não tomar sopa e eu sofro um pouquinho com isso, porque o calor gigantesco que sinto aumenta em 40 graus quando tenho que tomar. No Brasil, ou pelo menos em São Paulo e Minas estamos acostumados a tomar sopas no inverno, ou quando faz um clima mais ameno.

Terceiro, é muita comida! Rapaz, é muita comida mesmo! Em qualquer lugar que você vá: na casa de alguém, em restaurantes, em lugares de comida rápida, sempre vão servir muita comida! Quando saio para comer acabo pedindo o que tiver de menor ou mais simples e mesmo assim sempre acho que é muita comida. Todos os brasileiros que conheço que já vieram aqui concordam comigo até agora.

Quarto, é um costume quem faz a comida servi-la para os demais. Então, por exemplo, se você faz um almoço e convida várias pessoas, na hora de comer você tem que montar o prato de cada um e ir servindo. Mas isso não é só para datas especiais, no cotidiano o comum é que as comidas sejam servidas assim, individualmente. É muito diferente do Brasil, que todas as comidas ficam em cima de uma mesa ou do fogão mesmo e cada um serve seu prato, ou no café da manhã, a mesa cheia de coisas e cada um come o que tem vontade. Devo confessar, esse é um costume que demorei para me acostumar e, particularmente, acho um pouco incômodo. Por dois motivos: você não sabe a quantidade de comida que a pessoa come, então fica meio difícil servir um prato sem ter essa informação. E como aqui geralmente é servida muita comida, como eu já falei, quem come pouco acaba se sentindo meio pressionado a comer tudo, para não fazer desfeita. Ou até pode ser que uma pessoa coma pouco, mas em um dia específico ela está com mais fome ou está achando tudo muito gostoso e queira comer mais, mas lhe foi servia menos comida, enfim, acho complicado adivinhar quanto cada um tem o costume de comer ou queira comer naquele dia. O segundo motivo é que talvez a pessoa não goste de alguma coisa que lhe foi servida, mas ela não teve a opção de escolher se queria comer ou não. Pode ser que num almoço eu goste de tudo o que esteja ali, mas não de feijão, então me serviria de tudo, menos de feijão. Mas como não fui eu que me servi, o feijão veio parar no meu prato e agora, mais uma vez, eu me sinto pressionada a comer, para não fazer uma desfeita a quem praparou e me serviu a comida. Em relação a esse aspecto, já estou um pouco mais acostumada e hoje já não tenho tanta vergonha de fazer uma desfeita, caso precise deixar um pouco de comida no prato, porque não consegui comer tudo.

 

2 – Bom dia, boa tarde, boa noite

Aqui em Cartagena em qualquer lugar que você chegue, com qualquer pessoa que você fale, você irá cumprimentá-la com um bom dia, boa tarde, boa noite, dependendo do horário, obviamente. Sei que no Brasil em algumas cidades do interior ainda se tem esse costume, mas são poucos os lugares e em cidades grandes como São Paulo ele já foi perdido há muito tempo.

Ah! Aqui os vizinhos também mantêm um vínculo um pouco mais forte do que de meros conhecidos. Conversam, perguntam se está tudo bem, têm um relacionamento mais cordial.

 

3 – Roupas, corpos e praias

Uma diferença muito grande que percebi é em relação ao comportamento nas praias. Primeiro, em relação às roupas: é muito difícil você ver alguém que seja de Cartagena usando roupa de banho para entrar no mar, tipo sungas para os homens ou os biquínis para as mulheres. Os homens geralmente entram de bermudas e as mulheres sempre estão com o biquíni e o maiô, mas com shorts, ou alguma camiseta curta, etc. Claro que mais uma vez estou generalizando, você encontra pessoas com roupas de banho na praia, mas na maioria das vezes são turistas. Não há nenhum problema em usá-las, só não parece ser um costume.

Segundo, em relação aos corpos. No Brasil tem-se um pensamento preconceituoso e quase sempre machista de que é preciso estar em forma para expor o corpo. Muita gente tem vergonha de ir à praia porque acha que não está magro o suficiente, porque tem vergonha de mostrar “os pneuzinhos”, porque acha que todo mundo vai estar olhando para ela (eu me sentia assim, confesso). Acho isso muito triste. Aqui aparentemente ninguém tem esse problema. As pessoas não vão à praia para mostrar o quanto estão em forma e sim para se divertirem. Percebi isso logo nas primeiras vezes que fui à praia aqui e confirmei com o passar do tempo. Esse é um costume que me agrada muitíssimo aqui!

Terceiro, aqui é normal levar sua própria comida para comer na praia. Tem gente que compra comida por lá, claro, mas muita gente faz sua marmita em casa e leva para comer na praia e não há nada de esquisito ou vergonhoso nisso. No Brasil costuma-se chamar de “farofeiros”, num tom bem pejorativo quem leva comida. Aqui isso é totalmente OK.

 

4 – Muito colorido!

Ainda sobre roupas, aqui em Cartagena as pessoas costumam usar roupas cheias de cores. Tanto os homens quanto as mulheres. Essa é uma diferença interessante, comparada à São Paulo, por exemplo, onde as pessoas em geral se vestem com cores mais neutras. Acho que isso me chamou atenção em especial porque eu, particularmente, nunca gostei muito de usar roupas e acessórios coloridos, embora com o passar dos anos eu tenha colocado algumas cores além de preto, branco e cinza na minha vida.

 

5 – Forma de tratar as pessoas desconhecidas

É muito comum você ser tratada como “mi amor”, “mi vida”, “corazón”, “nena”, “papi”, “mami” por pessoas completamente desconhecidas. Esses são termos muito íntimos, mas que se usa com qualquer pessoa. Por exemplo, se você vai a uma loja comprar uma roupa, é muito provável que a vendedora fique te tratando como “mi amor” o tempo todo. Já me disseram que isso é um costume aqui de Cartagena, ou melhor, da costa. No interior, em cidades como Bogotá, Medellín, entre outras, não fazem isso. Devo dizer que me sinto meio constrangida quando desconhecidos falam assim comigo. No começo dava vontade de soltar um “vem cá, eu te conheço?”. Mas já sei que é uma questão cultural mesmo. Em São Paulo, por exemplo, nós mal falamos com desconhecidos, muito menos vamos tratá-los com tanta intimidade. Em Minas somos mais amigáveis, mas mesmo assim, mantemos certo limite de aproximação. Hoje em dia já estou acostumada em ser chamada de “mi vida” pela atendente do restaurante. Sem estresse.

 

6 – Festas e reuniões familiares

Estou muito acostumada com festas e reuniões no Brasil, em que todo mundo fala com todo mundo ao mesmo tempo. E fala alto, ri alto, grita, brinca, dança, faz a maior bagunça! Aqui as festas são mais calmas. Sempre tem música, isso é verdade, mas as pessoas quase nunca dançam (parece chocante, eu sei!). Geralmente todos ficam sentados, conversando uns com os outros, escutando a música, comendo quando a comida é servida. Não é uma festa ruim, obviamente, mas sinto que as nossas são um pouco mais animadas. Principalmente quando a família é grande e tem aquela falação, ou os amigos se juntam todos para fazer uma bagunça!

 

7 – As pessoas falam por telefone!

Eu tenho uma fobia de falar por telefone, não gosto. Me mandem carta, pombo correio, sinal de fumaça, me acordem às 6h da manhã tocando a campainha, mas não me liguem. Sei que não é todo mundo no Brasil que é assim, mas mesmo as mais simpáticas com telefonemas falam pouco por telefone, já perceberam? Acredito que seja porque falar por telefone celular no Brasil é extremamente caro e como as pessoas trabalham, estudam, estão sempre fora de casa (e, portanto, longe do telefone fixo), sai mais barato se comunicar por mensagens. Aqui é muito barato falar por celular. Sem querer exagerar, mas acho que até uma ligação internacional de celular para celular sai mais barato que uma ligação interurbana no Brasil, sério. Então todo mundo fala muito pelo celular. Quando querem entrar em contato com alguém só vão enviar mensagens quando a pessoa não atender o telefone. Por um lado isso é bom, falar com alguém é muito mais prático e fácil e se você não tem que pagar muito por isso, facilita sua vida. Por outro lado é ruim para pessoas estranhas como eu, que têm pavor de falar ao telefone!

 

Existem outros costumes que são diferentes dos que eu vivia no Brasil e me chamaram atenção, mas acredito que esses foram os principais. Acho que qualquer pessoa que muda de país se depara com coisas assim, que parecem bem diferentes num primeiro momento, mas aos poucos vai se acostumando. E, repito, não tem nada a ver com ser melhor ou pior. O importante, na minha opinião, é respeitar os costumes, as tradições, afinal, assim respeita as pessoas que te acolhem, te convidam, estão dispostos a compartilhar a cultura deles com você. E por que não compartilhar um pouquinho da sua própria também?

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Um comentário sobre “Diferenças culturais que me marcaram na Colômbia

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