Visitando meus eus

Vai parecer obsessão, mas ainda estou nesse clima de reflexões de aniversário. Não é de propósito dessa vez. Eu estava mexendo no passado, literalmente, e esses pesamentos surgiram.

Já falei várias vezes aqui que escrever é um exercício para mim, para organizar minhas ideias e tentar colocar um sentido nas coisas. Mas não escrevo só aqui no blog. A parte mais importante desse exercício é quando escrevo para mim mesma, em algo que poderia ser considerado um diário. Não funciona como um diário na prática, porque não escrevo todos os dias, às vezes fico muito tempo sem escrever. Também porque nem sempre uso esses diários como consultórios psicológicos em forma de caneta e papel, às vezes só anoto qualquer bobeira que vi na rua e achei interessante, por exemplo. Mas gosto desse exercício e é uma dica que deixo para vocês: escrevam em diários, faz bem para a saúde mental.

Enfim, mantenho esses diários há muitos anos e dias atrás encontrei alguns mais antigos, enquanto passei por uma maratona de organização no meu quarto. Parei um pouco para folhear cada um deles, foi como entrar em uma máquina do tempo e visitar as Sarah’s do passado. Foi um encontro comigo mesma ao mesmo tempo agradável e desagradável.

Agradável porque percebi o quanto cresci ao longo de 10 anos. Em minhas ideias, meu modo de me expressar e até mesmo na escrita. Mas talvez o mais importante é que eu cresci emocionalmente, psicologicamente. Percebi que consigo lidar melhor com alguns sentimentos e que superei (ou pelo menos estou em um processo avançado de superar) certos traumas que me acompanhavam. Isso é legal não porque hoje em dia minha vida seja perfeita e eu sou expert em lidar comm sentimentos e problemas, mas porque me mostra que as dificuldades que eu tenho agora também podem ser superadas daqui um tempo.

O lado desagradável foi ver que junto com esse crescimento veio certa comodidade. Lendo coisas que escrevi no passado vejo uma Sarah muito mais questionadora, curiosa, incomodada, inconformada. Vejo uma Sarah mais leitora, mais aberta a fazer perguntas e a tentar respondê-las. Após esse encontro fiquei me perguntando onde está essa Sarah.

Ter esses encontros no período do meu aniversário explodiu um pouco minha cabeça. Acho que por isso esse post tão pessoal. Mas estou considerando isso um sinal. Um sinal para voltar um pouco a ser como antes. Nem tudo o que a gente muda em nós mesmos é positivo, eu concluo.

Para terminar esse texto e essa fase introspectiva-filosófica-meio-depressiva-de-aniversariante, vou deixar uma das citações que encontrei nos cadernos. Uma das coisas que escrevo nesses cadernos são citações de livros que estou lendo. Às vezes gosto de um trecho e anoto para reler em outros momentos. Encontrei esse, de 2009, e me identifiquei.

“Sabes o que dizia a mim mesmo ainda há pouco? Se não tivesse mais fé na vida, se duvidasse duma mulher amada, da ordem universal, persuadido ao contrário de que tudo não é senão um caos infernal e maldito e estivesse eu preso dos horrores da desilução – mesmo então quereria viver ainda assim. Depois de ter bebido na taça encantada, só a deixaria uma vez esgotada. Aliás, perto dos trinta anos, pode ser que sinta saudade dela, mesmo inacabada, e irei… não sei aonde. Mas até os trinta anos, tenho certeza, minha mocidade triunfará de tudo, do desencanto, do desgosto de viver. Muitas vezes tenho perguntado a mim mesmo se haveria no mundo um desespero capaz de vencer em mim esse furioso apetite de viver, inconveniente, talvez; e penso que ele não existe, pelo menos antes de trinta anos. Esta sede de viver é chamada de vil por certos moralistas a catarrentos e turbeculosos, sobretudo por poetas. É verdade que é um traço característico dos Karamazóvi, essa sede de viver a qualquer preço, encontra-se em ti, mas por que haveria de ser vergonhoso?” (Dostoievski – Os irmãos Karamazóvi)

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