O castigo de Ilda

Da série de textos antigos. Já contei para vocês que teve uma época da vida que as pessoas me contavam causos e eu colocava uma dose de imaginação neles para escrever umas historinhas e divertir a mim mesma e à família. Esse foi escrito em 2008, baseado em uma história que minha mãe conta sobre como escapava de levar umas palmadas da minha avó, porque tinha uma dor no bumbum. Claro que ninguém nunca caiu nessa história, nem minha avó, acho, que só não batia nela porque ficava com dó ou por admirar a criatividade dela em inventar uma história para escapar. Mas minha mãe garante que é verdade essa dor. 

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O Castigo de Ilda

Ilda era a caçula da família. Ela tinha muitos irmãos, alguns bem mais velhos. E justamente por causa da idade, estava sempre com suas últimas irmãs. Brincavam juntas, saíam, aprontavam. Sim, porque apesar da aparência que possuíam de “santinhas”, elas sempre faziam algo que deixava essa característica apenas na aparência mesmo. Porém, quando a mãe das meninas descobria era castigo na certa. De vez em quando também dava algumas palmadas. Ilda sempre recebia a dose menor do castigo, o que fazia com que suas irmãs se indignassem diante da injustiça.

Isso acontecia por um motivo: certa vez, quando ainda eram mais novas, saíram para brincar. A mãe não aprovava essas brincadeiras na rua, mas elas iam escondidas. Ilda sempre ia junto. Mesmo quando era bebê suas irmãs a levavam e deixavam-na no mato, onde as formigas tinham seu almoço garantido. Neste dia em especial, quando perceberam, já passava da hora de voltar para casa. Tinham que chegar antes da mãe e, por isso, saíram correndo. Ilda, sem conseguir acompanhar suas irmãs, corria mais rápido. Foi então que tropeçou e caiu. Sentada. Nem pensou em chorar naquele momento. Foi levantada pelas outras meninas e continuaram a correr. Chegando em casa, a mãe já estava lá esperando com o chinelo na mão.

Em fila, uma por uma pediu desculpas à mãe, levou algumas chineladas e foi para o quarto, de castigo. Chegando a vez de Ilda, entretanto, ela chorava antes mesmo de apanhar. Quando a mãe perguntou o porquê do choro, a menina explicou que estava com dor, pois havia caído sentada. Nesse dia ela escapou do chinelo. Certamente também por ser a filha mais nova, pois se fosse qualquer outra apanharia mesmo com dor. Mas Ilda encontrou, então, uma forma de não apanhar: todas as vezes dizia que estava com dor. Depois de certo tempo nem dizia mais, apenas colocava as duas mãos para trás e fazia cara de choro. Como se a queda tivesse sido tão grave! Suas irmãs estavam aborrecidas e decidiram que não levariam mais o castigo sozinhas. Armaram um plano para fazer com que Ilda parasse de se aproveitar do fato de ser a irmã mais nova.

O plano era simples. As meninas propuseram uma nova brincadeira: escorregar da escada sentadas num colchão. Uma brincadeira que a mãe certamente desaprovaria, pois falaria dos riscos de quebrar a coluna, se machucar etc. Elas sabiam que seriam pegas e castigadas, mas não sozinhas.

Uma por vez sentava no colchão e descia escorregando pela escada. Era uma brincadeira super divertida, mas a diversão não tirou o foco do plano. Perto da hora da mãe chegar, uma delas foi correndo ao seu encontro para contar sobre a brincadeira. Quando as demais ouviram os passos fortes e rápidos da mãe, colocaram Ilda para escorregar. Pronto, plano completo com perfeição. A mãe chegou no momento em que Ilda caía de degrau em degrau.

Ela começou a brigar com Ilda ali mesmo. “Então quer dizer que a senhorita tem dores, é? E como participa de…” Não acabou de falar, pois de tão assustada que Ilda ficou, caiu do colchão e terminou de descer a escada rolando, caindo lá embaixo. Sentada.

As meninas ficaram assustadas, Ilda começou a chorar, a mãe foi socorrer a filha. Ilda tinha caído feio por causa de uma brincadeira perigosa: todas seriam castigadas. Em fila, como sempre, cada uma levou uma chinelada e foi para o castigo. Na vez de Ilda, ela botou as mãos para trás, fez cara de choro e por isso foi direto para o castigo. Dessa vez era verdade.

No fim, as irmãs não conseguiram fazer com que Ilda também apanhasse, pois a queda de fato a deixou com dores que apareciam, dependendo da posição em que se sentava. Ou, no caso, se apanhasse da mãe. Mas o castigo de Ilda foi exatamente esse: a dor falsa que ela usava como desculpa se tornou verdadeira. E ela até escapava das chineladas, mas não daquela dorzinha chata. E, claro, do castigo.

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