O problema da nossa geração não é a nossa geração

Ultimamente tenho lido vários textos que em um tom meio de desabafo ou talvez frustração falam sobre como nossa geração falhou. A tal geração Y, que domina diversas linguagens e mecanismos, que consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo, que alcançou certo nível de independência dentro do mercado de trabalho e tudo isso graças, em grande parte, à possibilidade de estabilidade econômica e social propiciada pelas gerações anteriores.

Pelo que estou entendendo, o que esses textos criticam é justamente essa suposta independência. Por exemplo, uma crítica que vejo muito é a seguinte: muitos jovens e adultos hoje em dia não precisam mais trabalhar em um escritório tradicional, 8 horas por dia, batendo cartão, obedecendo a inúmeros níveis hierárquicos. Supostamente, isso deveria ser uma coisa boa, mas a verdade é que não significa que essa pessoa seja menos explorada. A liberdade que ela tem para trabalhar sozinha, desde sua casa, acaba fazendo com que ela trabalhe muito, às vezes até altas horas da madrugada ou durante fins de semana para atender aos prazos. Ou talvez essa pessoa trabalhe em uma empresa “super descolada”, sem horários fixos, que pode sair e entrar quando quiser, ir vestido como quiser, mas recebe um salário baixo, ou está constantemente sob pressão dos clientes e chefes.

Nesse ponto, eu concordo com esses textos, trata-se de uma falsa independência. Entendo que a forma de exploração do trabalhador mudou em alguns setores, mas ela continua existindo. E olha a má notícia, isso não vai mudar enquanto vivermos em um sistema que sobrevive disso, da exploração, o que é uma característica do capitalismo . Aí, nesse ponto, discordo um pouco da maioria desses textos, porque ao contrário do que eles dizem, não me parece ser uma questão pessoal (de pessoas que “se rendem” à pressão), ou social (no sentido de ser uma geração confusa, que não sabe o que quer porque se perdeu no meio do caminho). Ao meu ver, é uma questão estrutural. Uma pessoa que trabalha 12 horas por dia em uma fábrica e uma pessoa que “tem liberdade” para trabalhar desde sua casa, mas não tem horários para dormir ou comer, ou feriados e fins de semana, essas duas pessoas estão na mesma situação de exploração.

Por isso, não concordo também com certo saudosismo que vejo em muitos jovens adultos da minha idade ao se compararem com a geração de seus pais e avós. Nossos pais e avós, em geral, tiveram um trabalho fixo por muitos anos e se aposentaram ali. Trabalharam muito e conseguiram criar seus filhos, talvez ter uma casa própria. Mas a custo de que? Renunciando a férias, fazendo horas extras mal pagas, passando pouco tempo com suas famílias, praticamente não tendo momentos de lazer, nem dinheiro para isso. A qualidade de vida era realmente melhor que a de hoje? Desconfio que não.

Quando leio esses textos e vejo esses comentários saudosistas penso que o foco está no lugar errado. O problema não é totalmente geracional e não tem a ver com o tipo de emprego que cada um tem ou está ao seu alcance ter para se sustentar. Hoje não está bom, mas não significa que no passado esteve melhor. Minha sugestão, que é o exercício que tento fazer ao ler esses textos, é mudar o foco, mudar a perspectiva do explorado para o explorador. Talvez esse primeiro passo nos dê uma dica sobre o que fazer a seguir.

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