Esse domingo cinzento

Hoje em São Paulo está nublado e não sei se é por isso ou pelo clima sinistro que paira pelo país, mas sinto como se o dia estivesse estranho, como se fosse um dia fora da realidade, não sei explicar. Vi um pouco do que andam falando sobre os protestos de hoje e isso me fez pensar em uma coisa.

Estou evitando falar de política aqui ou em minhas redes sociais. Não é porque eu acredito que esse assunto é chato ou porque me considere apolítica. Essa coisa de ser apolítico, ao meu ver, é algo impossível, já que tudo o que fazemos é político, até aquilo que parece mais trivial, como escolher que roupa vestir. Mas eu evito falar (embora nem sempre consiga me conter) porque ultimamente isso tem sido muito estressante. É um desgaste psicológico e intelectual que eu prefiro evitar. Discutir com quem não sabe e/ou não quer discutir, mas está sempre pronto para agredir. Aliás, isso tem tomado proporções realmente assustadoras.

Mas, por outro lado, o silêncio me incomoda. Porque enquanto muitas pessoas como eu querem evitar todo esse desgaste e procuram militar de outras formas (o que é totalmente válido), enquanto nos abstemos de falar, centenas de outras pessoas estão disseminando desinformação e não poucas vezes estão incitando o ódio e a violência. E não é numa proporção justa, já que esse movimento de desinformação tem ao seu lado muito dinheiro e a grande mídia.

Por isso, quando penso nisso tudo, eu concluo: bem, é minha obrigação me manifestar. Minha obrigação como cidadã, como um ser que reflete sobre a sociedade, como alguém que quer que a democracia seja respeitada, como cientista social. É obrigação de todo mundo. Se não, é como presenciar uma situação de machismo, de violência, por exemplo e ficar de braços cruzados, fingir que nada está acontecendo, alegar que não é da minha conta. Nós vivemos em uma sociedade, somos impactados pelo que acontece ao nosso redor e impactamos situações e pessoas. Não podemos fingir que isso não acontece. Mas aí depois eu penso: tá, e como eu posso me manifestar sem entrar em confrontos? Sem aceitar provocações e me meter em um caminho de debate que não vai levar a lugar nenhum? Discutir pelo Facebook é realmente válido, útil, proveitoso? E depois de observar o que se publica ali e como as questões são tratadas, com tanta superficialidade, respondo para mim mesma que não, não é proveitoso.

Vejam que situação complicada! Eu não sei resolver essa questão, mas não acho que eu ou qualquer pessoa deva parar de se expressar sobre o que quiser para evitar confrontos. E sim, considero as redes sociais veículos muito importantes para isso. Mas meu pessimismo me impede de encontrar ou exergar uma situação em que realmente seja possível que todos pensem objetivamente e consigam discutir e propor mudanças de verdade para o país. Por outro lado, sei que as mudanças vêm, às vezes é um trabalho de formiguinha, mas elas vêm. Se não fosse assim, ainda estaríamos na ditadura militar, ou não teríamos avançado tanto em direitos sociais (por mais que alguns queiram um retrocesso).

Enfim, estou tentando ser o mais sincera possível aqui, não apenas sobre meus posicionamentos políticos, mas sobre certa angústia diante dessa situação toda que o Brasil enfrenta. Que definitivamente não é uma angústia só minha, como indivíduo. Apenas por isso resolvi escrever e me manifestar como há muito tempo não tenho feito.

Não sou contra os protestos de hoje, todo mundo tem direito de defender um ponto de vista. Sou contra transformar isso em meio de manipulação, como a grande mídia faz. Sou contra o impeachment porque ainda que eu não concorde com muitas coisas do governo da presidenta Dilma, tenho que respeitar que ela foi eleita democraticamente. Sou contra o tratamento diferenciado que recebem certos políticos do PSDB, PMDB e DEM nas investigações dos casos de corrupção, como se eles não estivessem envolvidos nisso tudo. Sou contra essa hipocrisia de São Paulo, que esconde os casos de corrupção aqui, mas vai às ruas protestar contra o que lhe convém. Sou contra  violência verbal e física que os extremistas de todos os lados lançam contra os outros (tenho medo de onde isso pode chegar).

Acho que muitos dias cinzentos ainda virão pela frente. Mas não quero terminar esse texto pessimista, espero que depois de tudo isso ao menos as coisas melhorem, espero de verdade.

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