Para conhecer Marighella

Da série: textos antigos.

Em tempos de desinformação proposital e preguiça de pesquisar, após a polêmica do deputado Bolsonaro homenageando um torturador e sendo super criticado por isso, muitas pessoas (inexplicavelmente) apareceram em sua defesa. Algumas dessas pessoas dizem: não pode homenagear torturador, mas pode homenagear terrorista e guerrilheiro? Alguns citam Marighella, comparando suas ações à violência do Estado. Mas não há comparação, né, minha gente? Não podemos confundir a reação do oprimido com a violência do opressor. Daí eu lembrei do livro que conta a biografia do Marighella, publicado em 2012. Na época eu fazia umas resenhas para um site e tive a oportunidade linda de ler esse livro e escrever sobre ele. Achei apropriado republicar aqui agora. Mas acho mais apropriado e interessante ainda vocês lerem o livro, que vale muito a pena.

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Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo

(Mário Magalhães)

 

marighellaA História do Brasil é cheia de personagens e relatos fascinantes. Para além de uma “história oficial” que aprendemos no ensino básico (e muitas vezes continuamos a ouvir nos cursos superiores), há ainda tantas outras histórias que valem a pena serem reconstruídas e relembradas. Para não dizer conhecidas, pois épocas sombrias em nosso país as ocultaram ou distorceram por muito tempo. Entre essas histórias está a de Marighella, um dos grandes nomes da luta contra as ditaduras que se instauraram no Brasil. Um nome esquecido na maioria dos livros didáticos tem reaparecido para deixar viva sua trajetória de extrema importância que perpassou momentos distintos, mas todos eles com algo em comum: a violência contra a democracia e contra pessoas que agiram em seu favor.

“Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo” é um livro do jornalista Mário Magalhães, publicado pela editora Companhia das Letras, em 2012. A biografia daquele que já foi considerado o inimigo público número um do Brasil é repleta de detalhes não só da vida pessoal de Marighella, mas principalmente de suas relações políticas e sua formação como militante e guerrilheiro. Magalhães ainda faz uma reconstrução histórica da época em que viveu e atuou Marighella, desde o golpe de Estado de Getúlio Vargas e o Estado Novo, até o período da ditadura militar. Segundo o autor, foram nove anos de trabalho que contou com pesquisas a arquivos públicos e particulares em diversos lugares; com entrevistas a familiares, amigos e inimigos de Marighella – muitos deles personagens do livro; e certamente com um grande esforço em refazer os passos de alguém que se manteve na clandestinidade por muito tempo. O resultado desse trabalho é apresentado em uma narrativa incomum para livros deste gênero: com algumas cenas que dão a ideia de um filme, com certos diálogos que aparentam um romance, com referências e notas de rodapé ao final do livro. Talvez a escolha por esse estilo ao escrever uma biografia seja decorrente da formação de Magalhães como jornalista. Uma escolha feliz, que permite que a leitura de 600 páginas não fique cansativa. Não podemos ignorar também as imagens publicadas no decorrer das três partes que dividem o livro – documentos e fotos dos personagens que ajudam a contar a história.

A primeira parte do livro aborda o início da vida de Marighella na militância de esquerda. Filho primogênito do italiano Augusto Marighella e de Maria Rita dos Santos, uma negra de descendência haussá filha de escravos, Carlinhos, como era chamado, nasceu na Bahia em 1911. Ainda na época em que estudou no Ginásio da Bahia mostrava sua inclinação a questionar e fazer críticas a certos modelos impostos. Ao responder uma prova de Física em forma de poema, já tornava também evidente seu talento para a escrita e seu senso de humor aguçado. Mas foi em 1932, enquanto cursava a Escola Politécnica da Bahia, que Carlos Marighella deu o primeiro passo rumo ao que não abandonaria durante toda sua vida. Envolvido em uma greve pelo adiamento das provas finais, percebeu quando a manifestação se juntou a outra, que ocorria na Faculdade de Medicina, em apoio à revolução paulista contra Getúlio Vargas.  A mobilização ganhou proporções tão grandes que houve um confronto armado – primeira vez em que Marighella sacou uma arma. Horas depois, preso com outras pessoas, o manifestante não se esqueceria de zombar, em forma de poemas, daquele que o prendeu e se tornou seu grande perseguidor durante o período de associações estudantis: Juracy Magalhães.

Os próximos anos foram realmente agitados para Marighella, com movimentos organizados por estudantes que o levaram a se juntar ao recém criado Partido Comunista do Brasil , o PCB, que tinha como figura central Luiz Carlos Prestes, vitorioso em sua Coluna pelo Brasil. Sem terminar o curso de engenharia, em 1935 estava no Rio de Janeiro, momento em que uma tentativa de revolução fracassada o levou à prisão, onde foi torturado durante três semanas, sob a ordem do presidente Getúlio Vargas na ação contra os “subversivos”. Um ponto de vista diferente da “história oficial” é oferecido por Mário Magalhães, que identifica o governo de Vargas como ditador que, na época do Estado Novo, confabulava e cooperava com nazistas e fascistas. Após ser solto, Marighella prometeu a si mesmo que nunca mais seria torturado, ainda que tivesse que morrer para evitar. Preso novamente em 1939 passou por momentos de decepção com o Partido que fazia alianças antes impensadas e com a base internacional, a URSS, com Stálin à frente. Marighella ficou encarcerado na ilha de Fernando de Noronha junto com outros presos políticos até 1945, quando foi solto e militando no PCB construía sua própria imagem dentro do partido e entre seus colegas e amigos de militância.

A segunda parte do livro aborda as atividades exercidas por Marighella após sair da prisão. O autor focaliza as ações e o desenvolvimento do PCB até o golpe militar, em 1964. O Partido, que passou por um período de legalidade antes da repressão, contou com Marighella como um dos deputados federais em sua bancada, no ano de 1946. Como foi dito anteriormente, o PCB tinha como centro a figura de Prestes, quase idolatrado pelos militantes do Partido, segundo Magalhães. Sua palavra era a última e acatada por todos. O autor do livro faz uma sutil crítica à figura de Prestes, destacando os relatos sobre sua ausência em reuniões do Comitê Central e como uma pessoa que, já “acomodada”, facilmente aceitava acordos e alianças, deixando em segundo plano o propósito final de toda a luta da esquerda – a revolução socialista. Essa também foi a crítica de Marighella ao secretário geral, especialmente quando com o golpe militar às portas, a decisão de Prestes foi confiar em seu aliado na presidência da República, João Goulart, que por sua vez acreditava que o golpe não se efetivaria.

As divergências ideológicas e sobre como agir começaram a ser um obstáculo, assim como a descoberta de assassinatos cometidos pelo Partido contra suspeitos de traição, os moralismos, a hierarquia e as relações com Goulart que não eram apoiadas por todos. O Partido perdeu um grande número de militantes e em 1957 contava com apenas nove mil. Mário Magalhães novamente de forma sutil faz uma crítica, chamando a atenção para outro problema dentro do Partido: a “defasagem intelectual” do PCB, que “acomodado em mimetizar” a União Soviética, em nada teria contribuído com aparato teórico para o chamado socialismo científico (p. 221). Tudo isso não apenas fez com que o PCB entrasse no período da ditadura militar cheio de problemas, mas afastou nomes importantes do Partido, como Carlos Marighella.

A terceira parte do livro é o momento em que o autor traz o contexto da ditadura militar, iniciada com o golpe em 1964 até o ano da morte de Marighella, em 1969. A abordagem é sobre a militância armada que nesse período enfrentou as duras repressões e lutou pelo projeto de retomada da democracia e construção de uma sociedade socialista. Diversos grupos se organizaram nesse sentido, entre eles um dos mais importantes liderados por Marighella – a Ação Libertadora Nacional, ALN. Influenciado pelas revoluções chinesa e cubana, Marighella defendia a premissa de que o que importava naquele momento crítico era a ação. Debates, acordos e alianças não haveriam de dar resultados e eram entendidos como desnecessários. Esse foi o rompimento definitivo com o PCB e com Prestes, que não apoiava a luta armada. Ao contrário de Marighella, para quem a violência do Estado só seria respondida com a violência do povo.

A fim de fortalecer a luta armada e a ALN, Marighella mantinha relações com Cuba, para onde enviava militantes ao treinamento da guerrilha. Organizando o Grupo Tático Armado (GTA), mantinha a militância com ações como assaltos a bancos, comércios e carros pagadores. Entre as grandes ações do Grupo estão o assalto ao trem pagador, a ocupação da Rádio Nacional e a criação da Rádio Libertadora. O objetivo de Marighella era se utilizar das ações nas cidades para fortalecer um grupo tático no interior do país, pois acreditava que seria a guerrilha rural e não a urbana que daria início à revolução. A queda do GTA e da ALN começou com o evento do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick, o qual Marighella não teve participação e tomou conhecimento quando já havia acontecido. Considerando uma atitude irresponsável, o inimigo número um do Estado previu que grandes problemas surgiriam daí. De fato, importantes militantes foram presos, torturados e mortos desde então. Entre eles, os frades dominicanos que sempre deram apoio à ALN e à luta armada. Sob tortura, abriram informações para a polícia política, que em tocaia para Carlos Marighella, o assassinou em 1969.

Mário Magalhães faz questão de defender os frades de serem acusados como traidores, por alguns membros da ALN, afirmando que não foram as informações que mataram Marighella, mas a violência da ditadura militar. Na última parte do livro, o autor conta com detalhes alguns processos de tortura sofridos por militantes, alguns vivos até hoje e que relatam que nesses momentos era impossível que alguém não abrisse alguma informação. Após a morte de Marighella, a guerrilha continuou até que os demais líderes da ALN fossem capturados e mortos em tortura. Outros se exilaram em outros países para não morrer. Esse período sombrio de nossa História durou até 1985 e ainda hoje há muito o que ser investigado.  A morte do próprio Marighella só foi reconhecida como assassinato em 2011. O livro de Magalhães elucida com detalhes como não seria possível ter sido de outra maneira, como forjou a polícia na época. As evidências mostram que, de fato, Marighella foi assassinado sem nenhuma chance de defesa.

Segundo Mário Magalhães, o livro não foi escrito para promover a história de Marighella e sim, sendo uma pesquisa jornalística, contá-la mostrando os erros e acertos do guerrilheiro, como personagem importante de nossa História. Entretanto, como leitora, considero difícil que alguém leia essa biografia e não se admire nem um pouco pela personalidade e determinação de Marighella, que aparecem em suas relações amorosas, com seu filho, amigos e principalmente em sua luta política, como evidencia uma fala sua: “Tenhamos decisão, mesmo que seja enfrentando a morte. Porque para viver com dignidade, para conquistar o poder para o povo, para viver em liberdade, construir o socialismo, o progresso, vale mais a disposição de ir até ao sacrifício da vida.” (p. 551) Carlos Marighella foi fiel à sua decisão até o fim.

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