Confiança roubada

Dias atrás fui ao banco com o Cristian. Já estava quase no fim do expediente, mas deu tempo de ele entrar para resolver o que precisava. Enquanto isso, fiz o que tinha que fazer no caixa eletrônico e precisei esperar por ele do lado de fora, pois já não deixaram ninguém entrar. Fiquei uns 20 minutos ali e pude observar as pessoas e situações. Estava imersa em minhas observações, sem pensar em nada particularmente importante, quando entrou uma senhora.

Era uma senhora de quase 60 anos, talvez fosse menos, mas ela tinha uma expressão no rosto de quem viveu mais do que sua idade informa. Ela parou perto de um funcionário do banco que guardava apressadamente os objetos que estavam do lado de fora da agência, demonstrando seu receio de ser abordado por algum cliente naquele momento, o que justamente aconteceu. A senhora disse em voz baixa, levando a mão à cabeça: “fui lesada”. O funcionário não entendeu e ela repetiu: “fui lesada, me roubaram”. Pensei que haviam assaltado ela na saída do banco, ela disse que sua bolsa foi levada com tudo o que havia dentro, inclusive, o dinheiro que havia sacado ali pouco tempo antes. O funcionário disse que iria bloquear o cartão dela, para evitar mais problemas, pediu o número dos documentos, que ela sabia de memória, e foi lá dentro fazer o trâmite.

Nesse momento, a senhora estava de frente para mim, com lágrimas nos olhos e uma cara de desespero. Eu, que obviamente já tinha escutado toda a conversa, não sabia o que poderia fazer para ajudá-la. Eu não tinha muito dinheiro, não tinha carro para levá-la a uma delegacia, pensei em oferecer dinheiro para o ônibus, ou meu celular para ela ligar para alguém, era o que estava ao meu alcance, então me aproximei e perguntei sobre o que ela precisava. Ela estava muito confusa, talvez por não saber o que fazer nessa situação. Tentou me explicar melhor a história, que não sei se entendi bem, mas resumidamente foi assim:

Ela estava na agência bancária, quando uma moça começou uma conversa com ela. Conversaram sobre vários assuntos e a moça comentou que estava com um cheque de 7 mil reais, que já não teria tempo de depositar, porque precisava de um documento que não tinha ali e o banco já ia fechar. Conversaram muito e saíram do banco juntas. A senhora havia tirado um dinheiro no caixa e a moça sabia. Saíram dali e entraram num supermercado, perto do banco. A moça que estava com ela queria comprar uma roupa. Ao experimentar, deixou aos cuidados da senhora sua bolsa contendo o suposto cheque de 7 mil reais. Saiu do provador e convenceu a senhora a experimentar uma roupa também. A senhora pensou que não haveria problemas em deixar sua bolsa aos cuidados da moça. Mas quando saiu do provador, a moça não estava mais ali. Nem a bolsa.

Perguntei o que havia na bolsa além do dinheiro. “Tudo”, ela respondeu. Cartões de lojas com senhas, um celular. O único que sobrou foi o cartão do ônibus, que estava pendurado no pescoço. “Eu não moro aqui”, ela disse. O marido veio fazer um tratamento médico, ela estava na casa de um parente. Nisso, outras pessoas já haviam se aproximado e falamos para ela ir a uma delegacia, fazer um boletim de ocorrência. Seria o certo a se fazer, de fato, mas eu via na expressão daquela mulher um enorme desânimo, como quem pensa: “isso não vai dar em nada”. Mais do que a questão do dinheiro, que creio faria muita falta para ela, a senhora repetia sua indignação: “não tô acreditando nisso, por que ela fez isso?”. Sua maior tristeza parecia ser ter confiado na moça.

O funcionário do banco voltou e avisou que o cartão estava bloqueado, não havia mais nada que ele poderia fazer, foi o que ele disse. Ela foi convencida a fazer um B.O, havia um carro de polícia do outro lado da rua e uma mulher disse que iria acompanhá-la. Me entristeci por não conseguir fazer absolutamente nada por essa senhora, talvez eu poderia ter feito algo mais e não fiz. Fiquei pensando nela durante vários dias. Não sei o fim da história, mas desconfio que a senhora tinha razão, isso não ia dar em nada. Estar em uma cidade que não é sua, uma cidade cruel como São Paulo, ser roubada. Tive raiva da moça que a roubou. Um golpe que não é a primeira nem a última vez que ela deve cometer, tirando dinheiro de pessoas humildes, o pouco que elas devem ter. Levando bolsas, dinheiro e toda a confiança no próximo.

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