Cultura do estupro, machismo e feminismo: o que isso tem a ver com você?

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Desde semana passada, diante dos estupros das meninas do Rio e do Piauí (a esse não deram tanta atenção, mas é preciso citar), começou um debate importante sobre a cultura do estupro, sobre o que as mulheres sofrem diariamente pelo simples fato de serem mulheres. Na verdade, esse debate já é feito há muito tempo. O movimento feminista traz esse assunto à tona a todo momento, com o objetivo de expor o problema, para que ele seja resolvido. Mas nos últimos dias a discussão tomou maiores proporções.

Primeiro pensei que seria bobeira eu escrever um post sobre isso, já que felizmente praticamente todas as mulheres nas redes sociais têm se manifestado sobre o assunto e há inúmeros vídeos e textos sendo feitos sobre ele. Também não queria me sentir contribuindo para uma certa exploração da imagem dessas meninas. Com o passar dos dias, a conversa mudou um pouco e o tom de denúncia e revolta perdeu espaço para falas que culpam as vítimas e questionam, mais uma vez, a luta feminista. Então pensei que não podemos deixar esse debate morrer em nenhum âmbito do nosso cotidiano e se eu me proponho a manter esse blog, aqui deve ser mais um espaço para eu falar sobre o assunto.

Além disso, sempre comento que é importante a gente parar em alguns momentos para organizar as informações e pensamentos e com tantas falas confusas, sem embasamento e um tanto quanto perigosas, considero necessário fazer esse exercício agora. Creio que às vezes para um debate avançar é preciso dar um passo atrás. É como revisar a matéria antes de uma prova, sabe?  Nós, mulheres feministas, às vezes nos irritamos e perdemos a paciência com certos comentários, eu entendo e sinto isso, porque realmente é muito chato voltar a certas questões que para nós parecem básicas e ultrapassadas, mas às vezes é preciso retomá-las. Muitas pessoas são realmente machistas, misóginas e completamente contra a equidade entre homens e mulheres. Com essas pessoas a conversa é outra. Aliás, não há conversa, há luta. Mas muitas outras pessoas verdadeiramente sequer pensam em questões como essas, porque vivemos em uma sociedade estruturalmente machista. Certas atitudes são naturalizadas e é preciso um exercício diário para conseguirmos olhar de maneira diferente para elas e apresentar esse olhar para outras pessoas. Então resolvi escrever esse texto pensando nessas pessoas, que se percebem em uma sociedade machista, mas ao mesmo tempo não percebem o quanto muitas vezes reproduzimos, até sem querer, um discurso machista.

Dito isso, quero comentar algumas coisas que tenho visto pela internet e me parece essencial para, a partir daí, pensarmos outras coisas.

Cultura do estupro

Tenho visto muitos questionamentos sobre a cultura do estupro. Algumas pessoas se incomodam com esse termo e dizem, talvez numa tentativa de se defenderem, que “não é bem assim”, que “não vivemos em uma cultura do estupro”. Outras apenas não compreendem bem o que esse termo quer dizer.

Quando falamos em cultura de estupro, estamos falando que vivemos em uma sociedade onde não há respeito algum pelas mulheres, onde foi construída uma ideia de que nossos corpos são objetos, de que somos inferiores aos homens e que por isso devemos ser dominadas por eles, inclusive, fisicamente, da forma como eles quiserem. Ao contrário do que você pode pensar, isso não está apenas nas letras de funk, tão criticadas. Está nos livros, nas novelas, nas séries, nos filmes, nos jornais e revistas, está enraizado tão profundamente na sociedade que consideramos “natural” esse pensamento. Exemplos? Quando uma mulher sai na rua, ela pode chegar a perder a conta de quantas vezes é assediada por homens, de “fiu fius” a ameaças de estupro e violência. Algumas pessoas dizem: “que exagero! É só um elogio”. Imagine um estranho te abordando na rua, dizendo o que quer fazer com o seu corpo. Você realmente acha isso um elogio? O fato de uma mulher não poder sair de casa em paz, sem que um estranho a assedie e as pessoas acharem normal  “um elogio”, isso faz parte da cultura do estupro. Outro exemplo, que estamos presenciando nesse momento, é quando você tenta achar na vítima um motivo para ela ser violentada. “Usava roupa curta”, “saiu sozinha à noite”, “ficou bêbada”. A culpa nunca é do homem, o agressor, que não respeitou o fato de que o corpo da mulher não lhe pertence. Esses são dois dos inúmeros exemplos do cotidiano.

A objetificação da mulher é reforçada na mocinha da novela que é assediada pelo homem mais velho e no fim “se apaixona” por ele e são felizes para sempre. É reforçada em músicas de diversos estilos, como aquela do grupo de rock Guns N’ Roses, que fala sobre como o cara “teve que matar a mulher” (que música absurdamente aterrorizante!). É reforçada nas “piadas” sobre “pegar” mulheres bêbadas. É reforçada nas risadas e silêncios quando fotos de mulheres tratadas como objetos são compartilhadas em grupos e redes sociais. Quando falamos que todos os homens são, para as mulheres, estupradores em potencial é por causa disso, porque vivemos em uma cultura que diz para o homem que está OK ele usar a violência sexual contra uma mulher. Quando nos posicionamos contra a cultura do estupro, é contra isso que nos posicionamos.

Feminismo não é o contrário do machismo

A luta feminista é importante nesse sentido. Lutamos para que haja equidade entre homens e mulheres, ou seja, para que existam condições justas entre/para ambos, em todos os aspectos. É diferente falar em igualdade. Homens e mulheres não são iguais, temos uma configuração biológica diferente, temos características diferentes. Mas também não somos inferiores. O machismo coloca a mulher em uma posição inferior. O feminismo não busca colocar o homem numa posição inferior, percebem a diferença? Eu fiz um post sobre feminismo aqui, um pouco superficial e geral, mas que acho que pode ajudar e que também é minha visão do feminismo, para ler, cliquem aqui.

A luta feminista é uma luta das mulheres, mas os homens podem e devem apoiar

Eu não sou indígena. Eu posso ler e me informar sobre a situação dos indígenas no Brasil, mas eu nunca vou saber de verdade o que eles passam, porque eu não sou indígena. Eu posso escutar suas reivindicações e apoiar a luta deles fazendo tudo o que está ao meu alcance de fazer, mas eu não posso falar por eles. O mesmo acontece com a luta feminista.

Por mais empatia que um homem possa ter com os problemas enfrentados diariamente pelas mulheres, ele não é uma mulher. Ele não sabe o que nós temos que enfrentar no ônibus cheio, na rua deserta, no local de trabalho, em casa, na universidade, em todos os lugares. Então o homem não pode falar por uma mulher sobre algo que ele não vive. Isso também é machismo, porque é tirar o lugar de fala, é tomar para si um protagonismo que não é seu.

Existem muitas formas que os homens podem apoiar o movimento feminista e lutar contra o machismo. Por exemplo: chamando a atenção de seus amigos ou colegas de trabalho quando eles fazem comentários, ou “piadas” que denigrem uma mulher; não tratando a mulher como alguém a quem é preciso a todo tempo explicar coisas, porque você sabe melhor que ela; não interrompendo uma mulher quando ela fala; não a chamando de louca e histérica cada vez que ela defende seu ponto de vista com veemência; não julgando suas roupas ou seu comportamento. São pequenas atitudes no cotidiano que você, homem contra o machismo, pode tomar. Além, claro, de observar suas próprias atitudes para ver se você está sendo ou não machista em determinadas situações. Veja AQUI nesse post da Think Olga como essas coisas são importantes. Tudo é um processo.

Enfim, espero que com tudo isso o que foi dito tenha ficado claro porque esse assunto diz respeito a todos nós. Vivemos em uma sociedade machista e precisamos lutar para que isso mude e que outras mulheres não sejam desrespeitadas, humilhadas, desvalorizadas, violentadas e até mortas por esse motivo.

Para terminar quero recomendar pela milésima vez o vídeo da Chimamanda Ngozi Adichie, uma escritora nigeriana, chamado “Todos deveríamos ser feministas”, onde ela fala de maneira super didática sobre feminismo e cultura. 30 minutos investidos para assistir esse vídeo, que vale muito a pena.

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