O menino que queria ser um porco

Da série: textos antigos.

O texto de hoje é uma homenagem. Hoje é aniversário do meu irmão e escrevi essa historinha para ele (sobre ele, mas não contem para ninguém), em 2007. A história é baseada em um episódio que aconteceu quando éramos crianças, que não vou contar aqui porque ele me mataria, mas fica aí pra imaginação de vocês. Eu já exercitei a minha ao escrever essa história.

Bom domingo!

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O menino que queria ser um porco

Como saber o que se passava na cabeça de Jonas? Ele queria ser um porco, isso é tudo. Sim, é provável que havia uma razão (deveria haver!), mas nunca se soube. O conhecido era apenas isso: Jonas queria ser um porco. Não era um porco qualquer, mas um daqueles bem grandes e gorduchos, que parecem sorrir ao ver comida em sua frente.

Jonas se interessava por tudo o que tinha a ver com porcos: assistia Super Pig, tinha um cofrinho (no qual não colocava moedas, para não ter que quebrar depois), lia revistas sobre criação de porcos… Chegava a grunhir para as pessoas quando estava muito nervoso, ou enquanto dormia (talvez sonhasse que estava em um chiqueiro). Todos achavam estranho, mas não davam muita importância, afinal, ele era só uma criança. Alguns queriam ser super-heróis, ele queria ser um porco.

Mas do que Jonas mais gostava era ir à feira. Lá ele podia ver porcos de verdade. Todos sujinhos, se movendo de um lado para o outro. Os olhos de Jonas brilhavam! Certo dia, caminhando com sua família pela feira, não se conteve. Olhou para seu pai e disse, apontando para um porco bem grande: “Pai, olha lá seu filho!” Seu pai olhou, meio espantado, mas começou a gargalhar. Suas irmãs, obviamente, não pederam a chance de implicar e, em meio às risadas, falavam: “O Jonas é um porco! O Jonas é um porco!”. O garoto ficou bravo, começou a inventar desculpas. Mas ele estava mesmo triste. Pensou que nunca poderia ser um porco, pois era motivo de chacota. Chegou em casa chorando. Sua mãe tentava consolá-lo sem saber o porquê (e quando soube tentou se conter para não rir também).

Então Jonas decidiu que, por causa disso, ele provaria que podia ser um porco. Começou por parar de tomar banho – entrava no banheiro e deixava o chuveiro ligado só para disfarçar. Ia até o quintal, ligava a mangueira e jogava água na terra, para brincar na lama. Dentro de casa começou a andar de quatro e já não falava, mas fazia sons incompreensíveis. Se alguém perguntasse se ele havia se lavado, simplesmente respondia: “Honc, honc!” E era impossível saber se era um sim ou um não.

Depois de uns dias, por causa do cheiro, ficou óbvio que era um não. A família, cansada de tentar convencer Jonas a voltar a ser gente, resolveu deixá-lo numa cerca, no quintal. Levavam restos de comida. Mas a mãe chorava sem parar. O pai se perguntava: “O que eu fiz de errado?” Jonas viu todo o sofrimento e decidiu voltar a ser o que era, abandonar sua vida animal.

A readaptação foi difícil. Até hoje, quando está muito frio, Jonas fica um ou dois dias sem tomar banho. Mas por sua família ele abriu mão do seu sonho de ser um porco. Sem abandonar seu interesse – hoje ele cria porcos em uma fazenda, no interior.

 

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