E o doutorado?

Uma coisa curiosa é que parece que as pessoas nunca estão satisfeitas com o lugar onde você está, sempre esperam mais de você. Mesmo quando você está totalmente confortável com sua posição naquele momento. Por exemplo, se você é solteiro (a) tem sempre alguém perguntando: “e o namorado (a)?”, se é casado (a), a pergunta principal é: “quando vêm os filhos?”. Se terminou o colégio: “e a faculdade?”. Nunca parece ser suficiente o que você já fez e o que está fazendo no momento. Eu tenho certeza de que todo mundo passa por isso. Aliás, todo mundo já fez esse tipo de pergunta para alguém.

É uma coisa meio chata. Porque às vezes nós estamos realmente muito OK com a situação em que estamos, seja porque ainda não decidimos o que vamos fazer em seguida e não vemos a necessidade urgente de decidir, seja porque estamos seguros que queremos estar aí, justamente onde já estamos. Mas aí surge essa pressão exterior que se transforma em uma pressão interior. Ou seja, quando nos damos conta, estamos nos fazendo essas mesmas perguntas e sem saber como responder, porque já não estamos mais tão certos das coisas. Porém, não é porque mudou o que queremos ou não fazer, é porque parece que o que queremos ou não fazer não se encaixa no que as pessoas querem ou esperam que a gente faça e isso causa uma ansiedade.

Tá bom, Sarah, e o que essa coisa de doutorado aí no título tem a ver com tudo isso? Tem a ver com minha vida acadêmica e com eu estar vivendo essa pressão externa e interna. Terminei minha graduação, fiz um mestrado e o lógico para a família, os colegas, os professores e para mim mesma seria o que? Isso, um doutorado. Eu quero fazer? Acho que sim. Agora? Definitivamente, não. Pode ser que eu deixe o tempo passar demais e depois não queira mais? Pode ser. E mesmo assim não quero fazer agora? Não. Mas fico louca pensando nessas coisas? Totalmente maluca.

Há umas semanas o Facebook me lembrou de uma citação que eu compartilhei, de um livro do Rubem Alves. Fala sobre o nosso desejo e o desejo dos outros para nós. Achei essa lembrança muito apropriada para esse momento. Lembrei que não devo me render a essas pressões externas e internas, ou serei muito infeliz fazendo algo que não quero fazer. Não acho que as pessoas nos pressionam (e nós pressinamos a outras) por maldade, não acho mesmo, mas acaba fazendo um mal. Eu quero estar atenta para não pressionar ninguém com perguntas “inocentes” e resolvi compartilhar tudo isso para que vocês tentem estar atentos também.

A citação que falei é do livro “Variações sobre o Prazer”, do Rubem Alves. É essa aqui:

“Lembrei-me das palavras de Walt Whitman: “Quem anda duzentos metros sem vontade/ anda seguindo o próprio funeral/ vestindo a própria mortalha…”.

Pensei então nas minhas longas caminhadas pelo meu próprio funeral, fazendo aquilo que não desejo fazer, fazendo porque outros desejam que eu faça. “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”. Sou esse intervalo, esse vazio – de um lado, o meu desejo (onde foi que o perdi?); do outro lado, o desejo dos outros que esperam coisas de mim. Não, não são os inimigos que me impõem o intervalo. Inimigos: não lhes dou a menor importância. Os desejos que me pegam são os desejos das pessoas que amo – anzóis na carne. Como tenho raiva do Antoine de Saint-Expupéry – “tornamo-nos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos…”. Mas isso não é terrível? Ser responsável por tanta gente? Cristo, por amar demais, terminou na cruz. Embora não saibamos, o amor também mata.”

 

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