O cristão, as questões sociais e a intolerância

Cenário 1

No Brasil, em plena crise política, processo de impeachment e todos os outros problemas sociais, encontramos pessoas cada vez mais intolerantes umas com as outras. Entre tantos discursos de ódio e falta de empatia, está a fala de pessoas que se dizem cristãs. Pastores que não têm a menor vergonha de propagarem ódio em seus programas de TV, mas também pessoas “comuns”, do nosso cotidiano, apoiando todo tipo de violência e injustiça social sob as mais criativas (e assustadoras) desculpas.

 

Cenário 2

A Colômbia está passando por um momento histórico de acordo de paz entre as FARC e o Estado, após uma guerra de décadas e um longo processo de negociação. Os cidadãos colombianos vão participar de um plebiscito para votar contra ou a favor do acordo final. Entre as vozes dos que estão contra o acordo, fazendo campanha para o “não” ganhar (ou seja, contra o processo de paz), estão muitos que se dizem cristãos, repetindo o discursos de seus líderes que usam sua influência por meio da mídia e das redes sociais para defenderem a guerra.

 

Esses dois cenários não são tão autais quanto parecem. O “cristianismo” apoiando absurdos casos de violência, ódio e injustiça não é uma novidade. Basta lembrarmos da invasão das Américas pelos europeus e a catequização forçada dos povos indígenas. Basta lembrarmos dos nobres cristãos que escravizaram os negros africanos. A História da humanidade está cheia de exemplos. Não, não é algo atual. Talvez hoje, para nós, pareça um pouco mais chocante porque gostamos de acreditar que evoluímos e quando nos damos conta que não é assim, ficamos decepcionados. Ou talvez porque a a Internet e as redes sociais tornaram-se amplificadores de todas as vozes, inclusive, as que vêm cheias de ódio e por isso agora a intolerância, o racismo, o machismo, a homofobia estão mais escancarados.

Qualquer pessoa que tenha a mínima curiosidade em conhecer a história de Jesus Cristo (não precisa ser um cristão para isso) vai perceber o tamanho da incoerência entre o que Ele pregava e o que pratica seus supostos seguidores. Então eu me pergunto: será que os próprios cristãos não conseguem se dar conta disso?

Não quero dar um tom pessoal a esse texto, mas é impossível não contextualiar meu lugar de fala. Eu cresci na igreja, em uma igreja Batista. Minha mãe sempre levava a mim e meus irmãos, desde pequenos. Digamos que até certa idade eu não tive escolha, mas não é como se eu quisesse estar em outro lugar, eu gostava de ir à igreja. Quando finalmente tive idade e conhecimento suficientes para entender meu próprio universo e pude escolher que religião seguir, eu decidi continuar a ser cristã. Tudo aquilo que aprendi na infância fazia (faz) muito sentido para mim. Mas eu também alcancei uma idade e conhecimento suficientes para me dar conta de que o que não fazia sentido era a relação entre o discurso e a prática das igrejas. Há alguns anos não frequento nenhuma igreja e sei que é difícil para alguns cristãos frequentadores entenderem, mas eu simplesmente não consigo participar de algo que não vejo a menor coerência. Não consigo fazer parte de uma comunidade que considere mais importante a maneira que uma pessoa se veste, a música que ela escuta, se ela gosta ou não de dançar,  que o que ela tem para falar e contribuir. Acho impossível estar em um lugar que coloca a mulher em uma posição inferior aos homens e propaga o machismo de diferentes maneiras. Não sei lidar com o discurso de amor ao próximo e a falta de atitude em relação aos problemas sociais, nem que seja apenas em relação ao bairro onde a igreja está localizada. Nem vou falar da questão do dinheiro, porque felizmente nunca fiz e nunca farei parte de uma igreja que priorize os bens materiais. Eu preciso ser coerente comigo mesma, respeitar o que eu acredito, para não enlouquecer nesse mundo e isso, ao meu ver, não é possível dentro de uma igreja. Pelo menos até agora  não encontrei nenhuma onde fosse possível.

Sempre me lembro de uma passagem do clássico livro “Os Irmãos Karamazov”. O capítulo se chama “O grande inquisidor”, é uma idealização de um dos irmãos, o Ivan Karamazov sobre como seria se Cristo voltasse à Terra, reencarnado. Certamente ele atrapalharia os interesses das igrejas. Seus discursos sobre amor seriam criticados (nos dias de hoje talvez ele fosse chamado de esquerdopata) e, finalmente, ele seria preso. Talvez fosse crucificado novamente.

Não consigo imaginar o Cristo com um microfone na mão proferindo palavras de ódio contra homossexuais, por exemplo. Também não consigo imaginar Ele postando no Facebook palavras de apoio à polícia militar por ter atirado e jogado bombas nas pessoas, por matar jovens negros nas periferias. É impossível para mim pensar em um Cristo que falasse: “não vamos perdoar esses guerrilheiros, não há acordo de paz que resolva isso, só a força vai resolver”. Não me parece possível um Cristo que nos dias de hoje apoiasse um político que homenageia torturadores. O próprio Cristo foi torturado. As palavras dele eram sobre amar ao próximo como a si mesmo, oferecer a outra face, perdoar setenta vezes sete…

Da maneira como eu entendo o Cristianismo, portanto, um cristão jamais poderia estar do lado do opressor, do privilegiado, do mais rico, do torturador. Um cristão jamais poderia apoiar qualquer ato de violência ou ódio. Um cristão deveria ser engajado (da maneira que for) em questões sociais e conquistas de direitos, não porque ele é bonzinho e perfeito ou melhor que alguém, mas porque ele estaria cumprindo, na prática, o maior mandamento que foi deixado pelo seu mestre. Ignorar o que se passa aqui hoje porque no fim o que importa é o céu é, no meu ponto de vista, uma grande irresponsabilidade como cristão.

Sei que nas igrejas ainda existem pessoas que procuram levar o Cristianismo a sério. Eu tenho o privilégio de conhecer muitas dessas pessoas. Mas infelizmente não é a maioria e por isso considero importante que essas pessoas se manifestem. Por isso escrevi esse texto, embora eu reconheça que sou talvez a mais rebelde e imperfeita aos olhos de muitas pessoas. Realmente, eu sou imperfeita, mas não posso me omitir diante de tanto ódio e intolerância que no momento estão vindo mais intensamente por parte daqueles que se dizem cristãos (muitos não são de verdade, outros são enganados por seus líderes), daqueles que, ao contrário, deveriam espalhar o amor, a paciência e a compreensão.

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3 comentários sobre “O cristão, as questões sociais e a intolerância

  1. Muito bom seu texto, concordo com muitas coisas.
    Já havia desistido de discutir com vc esse assunto de ir ou não ir a igreja, mas tenho q falar mais uma coisa: Você diz que não pode estar em um lugar onde há práticas com as quais vc não concorda. Então pense se todos fizessem a mesma coisa, onde estaria a igreja hoje, se ela ( não o templo, mas as pessoas adorando e servindo unidas) não existisse? Jesus nos deixou essa missão de propagar a salvação por meio da igreja, do Corpo, como Paulo falou. A igreja ainda é a melhor maneira de reunir esse povo e criar estratégias. Claro que existem mtas que são ou clubes ou casas de assalto. Mas muitas outras não são assim. Agora, com certeza, nenhuma é perfeita. Um lugar onde se reúne gente imperfeita, pecadora, rebelde, não pode ser um lugar perfeito. As incoerências que vc enxerga só é reflexo do pecado das pessoas.
    E mesmo se pensarmos no ambiente em si, sabemos que Jesus frequentava as sinagogas, Paulo também. É claro que eles não estavam de acordo com mta coisa que se passava ali dentro, mas seus discursos mai duros, tanto de Jesus quanto de Paulo foram dados na sinagoga. E mais, se Jesus tivesse pensado que nem vc: “Ah, nesse lugar não propagam o amor verdadeiro de Deus, é tudo mto incoerente. Não farei parte disso”, muito provavelmente ele não teria sido perseguido e aí teria sido difícil de ele cumprir seu propósito de entregar a vida por nós.
    Você participa de inúmeros grupos e instituições que não são nada coerentes, que estão cheios de problemas, e nem por isso deixou de participar. A faculdade, por exemplo, qdo vc viu um monte de coisas com as quais não concordava e injustiças, sua decisão foi sair? Não, vc se engajou e entrou em movimentos estudantis, lutou pela melhoria da sua universidade.
    Imagine se na época do período militar as pessoas q não concordavam com aquilo simplesmente tivessem ido embora, em vez de lutar. Elas foram perseguidas e torturadas,as se engajaram e lutaram pelo país.
    Ser cristão significa se engajar tbm e lutar pela verdade de Cristo, se possível, começando dentro da igreja. Quanto ao nosso pecado, meu e de cada um q está lá, o Espírito Santo vai trabalhando com cada um, não podemos olhar para isso. Agora, independentemente do meu e do seu pecado, o cristão deve sim exortar outros cristãos quando for preciso. A própria Bíblia apoia isso, não se trata de julgar, e sim de se engajar ma verdade de Cristo.
    Claro que haverá perseguição, sempre haverá aqueles q não aceitam seu posicionamento e vão te chamar de julgadora, arrogante ou sei lá o que mais. Mas os maiores perseguidores de Cristo e de Paulo saíam de dentro das sinagogas. O próprio Paulo, antes Saulo, era um deles. Nem por isso deixaram de frequentar, participar e exortar.
    Por fim, acredito q devemos sim nos reunir em igreja. Deus recebe o louvor oferecido ali, se feito com sinceridade. Se o outro não foi sincero, problema dele. O momento do estudo da palavra nos equipa e a gente recebe fortalecimento do Espírito Santo por meio da pessoa que Deus preparou para o ensino. Essa pessoa tbm não é perfeita e, vez por outra, vai dizer algo que talvez lhe pareça preconceituoso ou algo do tipo. Mas ainda assim haverá muita coisa para se aprender dele. Claro q estou falando de pastores sérios, não alguns ladrões que vemos por aí. Aquilo que vc ouviu dele e não concordou, vá até a Bíblia depois e verifica o que Deus realmente diz a respeito daquilo. Por isso é importante ler a Bíblia e orar tbm, pois a oração nos aproxima de Deus e assim poderemos conhece-lo mais e ter mais discernimento diante de certos temas.
    No mais, à luta. Não precisa deixar o grupo e depois se justificar do porquê saiu. É ali dentro que vamos nos engajar, exortar o povo qto a atos de amor, sociais, políticos etc. Que isso vai incomodar boa parte dos membros, vai sim, mas é justamente essa a ideia. Acho que não frequentar a igreja por ela parecer incoerente é uma decisão ainda mais incoerente se tomada por um cristão, sobretudo ativista.
    Enfim, na verdade essa resposta serviu mais pra mim do q pra vc, da metade pra frente eu já estava pensando no qto estou acomodada e conformada com coisas q eu deveria mudar.
    Acho q isso é parte da estratégia do diabo. A pessoa peca, se envergonha de seus pecados e por isso acaba deixando de se engajar e se posicionar pq acha que não teria moral pra falar. Não creio q deve ser assim.

    • Eu concordo e discordo de vc ao mesmo tempo, rs.
      Sei que não existe Igreja com uma pessoa só e por isso frequentar uma igreja (com letra minúscula) é importante. Porque nesses lugares a gente encontra pessoas para compartilhar a fé, além de tudo o que você disse.
      Mas existe uma diferença entre eu estar numa universidade, pra usar o exemplo que você deu, e em algum momento ouvir algo que eu não concordo vindo de um professor, questionar esse professor e talvez abandonar sua aula, ou me juntar com outros alunos para debater o assunto e entre estar numa igreja, ouvir algo que eu não gosto vindo de um líder ou de um pastor e questionar esse pastor. A diferença é que eu tenho liberdade pra fazer isso no primeiro caso, mas não no segundo, porque na igreja se supõe que essa liderança ou autoridade não deve ser questionada. Eu posso acabar um semestre com um professor de quem eu discordo e não voltar a vê-lo nunca mais. Mas na igreja eu seria obrigada a tolerar algo que eu não concordo (como a subalternidade da mulher) sendo ensinada para as pessoas da minha comunidade e “estar ok” com isso, em muitos casos até mesmo porque essas próprias pessoas estariam de acordo com o que é falado. Para mim, não tem como comparar as duas coisas. Em um lugar eu tenho múltiplas vozes debatendo entre si, no outro não. Eu poderia chegar em uma igreja machista e falar sobre o feminismo. Eu seria escutada? Ou tentariam me disciplinar? E se eu não posso sequer falar sobre feminismo na igreja, como poderia frequentar um lugar assim?
      Não sei, é complicado. Eu gostaria que essa coisa que você diz sobre fazer a diferença dentro da igreja fosse verdade, mas meu pessimismo não me permite acreditar. E não é só o pessimismo, é a própria estrutura da igreja. Infelizmente eu não vejo como nessa estrutura isso seria possível.

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