Um primata monstruosamente auto-suficiente

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Minha intenção hoje era de compartilhar outra citação, não essa. Mas sempre que pego meu caderno, acabo relendo algumas coisas e me deparei com esse trecho do livro “Maya”, do Jostein Gaarder. Já comentei sobre ele aqui algumas vezes. Aliás, minha penúltima citação foi desse mesmo livro.

O que me fez reler essa citação foi essa primeira frase, “sempre me pareceu terrível pensar que posso desaparecer a qualquer momento”, acho que porque ainda estou um pouco chocada com a morte do ator Domingos Montagner, algo tão repentino, triste e trágico. Então quando bati o olho nessa frase quis continuar lendo para me lembrar do porquê ter anotado esse trecho.

O narrador está dizendo aí sobre o confilito em pensar sua vida – perecível, única, curta – na perspectiva da eternidade. Aparentemente, ele não consegue conciliar as duas coisas. Será que alguém consegue? Vamos pensar nisso nessa semana.

A edição que eu tenho desse livro é da Companhia das Letras, do ano 2000. Quando anotei esse trecho, não guardei o número da página, então não posso compartilhar aqui. Como falei em citações anteriores, eu não tinha o hábito de anotar as referências, apenas o trecho. Estou fazendo isso com minhas leituras mais recentes, mas quando eu postar uma citação mais antiga aqui, não vou conseguir dar a referência completa.

Boa semana a todos!

Sempre me pareceu terrível pensar que posso desaparecer a qualquer momento, que só me cabe esta vez e que nunca mais vou voltar. Assim, de certa forma, reconciliei-me com essa ideia, situando a mim e a minha breve vida dentro de um contexto maior. Treinei para aceitar que não passo de uma peça ínfimia na grande aventura da vida, um pedacinho fugaz de algo que é bem maior e mais poderoso do que eu. Dessa maneira, tentei ampliar minha identidade, meu próprio eu, sempre à custa do pequeno eu, esse eu que a qualquer momento pode ter o mesmo destino de um pequeno corço, esse ungulado morto que ainda me pesa em algum lugar do subconsciente e nunca se levanta nem se move. Treinei e treino continuamente, embora não possa me gabar de ter feito grandes progressos. Continua me ocorrendo todas as manhãs que só eu sou eu, e que só estou aqui agora, que só agora você e eu somos os que trazemos dentro de nós a consciência que este Universo tem de si mesmo.

Contemplar a própria vida sob o aspecto do eterno talvez possa ser considerado um respeitável êxito moral ou intelectual, mas não proporciona necessariamente paz e tranquilidade mental. Não é um consolo o fato de que eu – um primata monstruosamente auto-suficiente – seja capaz de trazer na minha memória todo o passado deste Universo, desde o big-bang até Bill Gates e Monica Lewinsky, só para citar dois dos primatas mais famosos da nossa época. Não proporciona nenhuma paz espiritual abraçar períodos de tempo cada vez mais longos, devo confessar que é exatamente o contrário, as coisas pioraram, e talvez e devesse ter procurado um cirurgião da alma para que tirasse esse animal morto do meu subsconsciente infeccionado. Agora é tarde demais, acho.

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