Rumo ao vegetarianismo

Decidi me tornar vegetariana. Não, não é brincadeira.

Quando eu era jovem (como falar isso sem parecer velha?), ser vegetariano era algo que não fazia o menor sentido para mim. “Como alguém pode viver sem carne?”, eu pensava. Na minha cabeça, vegetarianos eram pessoas meio hippies (sei lá por que eu pensava isso), ou que pertenciam a alguma religião que proibia o consumo de carne, ou pessoas que queriam ser diferentonas, que se achavam melhores que os meros mortais. Até há poucos anos eu pensava mais ou menos assim. Até que dois ou três conhecidos meus se tornaram vegetarianos, não ao mesmo tempo. “Hum, conte-me mais sobre isso”, eu disse, e achei interessante e coerentes as razões pelas quais eles tinham feito essa mudança. Segui minha vida normalmente, mas, aos poucos, comecei a me interessar mais sobre o assunto. “Vou só ver esse documentário aqui sobre a produção de carne”, “olha que interessante esse artigo sobre a água potável, nunca tinha pensado que a indústria da carne estava ligada a isso”, etc. Aí comecei a ficar incomodada. Porém, ao mesmo tempo pensava: “poxa, mas é impossível não comer carne”. À medida que eu conhecia mais sobre o tema, via mais documentários, lia mais, ouvia mais relatos de pessoas vegetarianas (dessa vez buscando na internet) , mais entendia que só estar incomodada não era suficiente, então eu decidi reduzir o consumo de carne. Disse a mim mesma: “OK, não preciso parar de comer carne, ser vegetariano é caro [era o que eu pensava], eu sou pobre, posso reduzir bastante o consumo da carne e assim faço o que está ao meu alcance de fazer”. Mas continuei lendo, pesquisando e me dei conta que só reduzir o consumo de carne também não era o suficiente, então decidi me tornar vegetariana.

Esse post não é para convencer ninguém a se tornar vegetariano, não quero ser esse tipo de pessoa que empurra suas convicções às outras. Na verdade, poucas pessoas sabem dessa decisão (até agora, hehe). Minha família, obviamente, sabe e alguns poucos amigos ficaram sabendo só até a fase que eu decidi reduzir o consumo de carne. Mesmo assim, sempre tive receio em comentar isso com eles. Daí comecei a pensar: por que estou com medo de falar para meus amigos e para as pessoas em geral que quero me tornar vegetariana? Afinal, não tem nada de errado nisso. Então me dei conta que o medo era de ser julgada. “Aaah, que absurdo”, ou “ah, vai entrar nessa moda”, ou “alá ela querendo ser diferentona”, ou “alá ela se achando superior porque não come carne”. Julgamentos que eu fazia com outras pessoas, antes de entender o que é ser vegetariano. Também percebi que o medo era de ser excluída porque “como é difícil agradar uma pessoa que não come carne”. Isso era o que eu pensava antes sobre os vegetarianos. Por fim, outro medo era de ser desanimada pelas pessoas: “você não vai conseguir, parar de comer carne é muito difícil”, “quero ver você recusar um churrasco”, etc. Sempre tem pessoas para nos desanimar de qualquer decisão que a gente tome, né? Então comecei minha mudança alimentar sem grandes alardes, não contei para muita gente.

Por que então decidi escrever esse post? Bem, vocês já sabem que gosto de pessoas que se posicionam, ainda que eu não concorde com o posicionamento delas. Vegetariansmo não é só uma dieta, é também um posicionamento social e político e eu senti que precisava compartilhar o meu. Além disso, tenho amigos e conhecidos que já comentaram comigo sobre sua vontade de deixar de consumir carne, então achei interessante contar como tem sido a minha experiência, talvez isso dê um ânimo a elas e a quem aparecer aqui por acaso atrás desse tema.

 

Ainda não sou vegetariana, estou a caminho disso

Uma sugestão que eu li em todos os relatos de pessoas que se tornaram vegetarianas foi: se você quer parar de comer carne, faça isso aos poucos. Me apeguei a isso e vi que realmente é uma boa dica. Sei que há pessoas que decidem parar de comer carne e conseguem no mesmo dia, numa boa. Mas a verdade é que não é tão simples assim para a maioria das pessoas. Imagine, você come carne desde sempre, desde que começou a comer outro alimento que não fosse o leite da sua mãe. O seu paladar foi acostumado ao sabor da carne, não é tão simples assim abandonar isso.

Eu decidi respeitar o tempo do meu corpo. O momento que meu corpo falasse: “OK, legal, você já percebeu que não precisa mais disso, não é mesmo?”. Mas obviamente meu corpo não vai responder a um estímulo se eu não faço nada, certo? Então há três meses eu e meu namorado, decidimos reduzir o consumo de carne (sim, estamos juntos nessa caminhada também). Comíamos carne praticamente todos os dias e reduzimos para 3 a 4 vezes na semana. Quando eu falo “carne” estou falando todo tipo de carne, inclusive o presunto que a gente coloca no pão, o atum que a gente mistura no macarrão, etc. Às vezes não comíamos carne no almoço, mas no lanche da tarde tinha alguma coisa. O dia sem comer carne é o dia sem comer NADA de carne em nenhuma refeição.

Como eu nunca tive problemas em comer saladas e legumes, não foi tão difícil assim me acostumar a refeições sem carne, meu maior desafio tem sido variar o cardápio. 99% das receitas que eu conhecia eram com carne. Isso estava me chateando bastante porque mesmo procurando receitas novas, a verdade é que eu não tenho muito tempo para testá-las. Mesmo assim consegui manter a rotina de alimentação. Mas confesso, me acomodei. Eu sentia que já podia mudar de nível, mas me dei conta de que estava acomodada.

Então há mais ou menos três semanas decidi mudar novamente e passar a comer carne apenas duas vezes durante a semana. Pensei que seria mais difícil, mas não foi, meu corpo realmente já está se acostumando à redução de carne e meu paladar está diferente, mas vou falar sobre isso daqui a pouco. Bem, então atualmente estou nesse momento de comer carne duas vezes por semana. Não significa que nos dias que eu como carne, fico me entupindo dela o dia inteiro, é uma pequena porção no almoço e, eventualmente, na janta. Meu próximo objetivo é reduzir o consumo de carne para um dia na semana e, após isso, excluir completamente a carne da minha dieta (todo tipo de carne!). Não sei quanto tempo vai levar para eu chegar nesse objetivo, imagino que mais alguns meses, mas como eu falei, prefiro ir com calma e deixar meu corpo, meu paladar, minha rotina de cozinhar, tudo, se adaptarem e não fazer uma mudança drástica. Para mim funciona melhor assim.

Também consumo ovos e leite. Significa que não serei vegana (veganos não consomem nada de origem animal) e sim que estou a caminho de ser ovolactovegetariana. De qualquer modo, tenho procurado reduzir o consumo desses produtos também, mas não vou entrar nesses detalhes agora, para não deixar o texto maior do que vai ficar, posso falar sobre isso depois.

 

Por que decidi me tornar vegetariana?

São quatro razões principais, sem hierarquia de importância: o maltrato animal, a questão do meio ambiente, a questão do trabalhador e a questão da saúde.

Não vou entrar em detalhes sobre cada uma dessas razões, para não falar demais. Sobre a questão do meio ambiente recomendo que vocês procurem ver o documentário Cowspiracy (trailer em português AQUI), ele está disponível na Netflix e acredito que alguém já compartilhou ele legendado no Youtube também. Esse documentário mostra sobre como a indústria da carne e a criação de gado para abate é a grande responsável pela emissão de CO2 e a contaminação da água potável no mundo. Fala sobre muito mais além disso, por isso eu recomendo que vocês vejam como uma maneira de se introduzirem no tema. Sobre o maltrato animal, uma busca rápida no Google vai te oferecer muitos artigos e vídeos que falem sobre o assunto. Um documentário brasileiro um pouco antigo, um pouco chocante, mas muito importante se chama “A Carne é Fraca”, ele está disponível para ser visto no Youtube AQUI. Estamos acostumados a comprar carne nos açougues e supermercados, cortadinhas, embaladas, isso nos faz esquecer de onde ela vem e todo o processo que o animal passa até vir parar no nosso prato. Vejam aqui esse artigo sobre o que passa o animal até virar um bife. É um processo violento e cada vez eu que eu leio ou vejo algo sobre o assunto me dá uma dor no coração saber que colaboro para isso.

A questão da saúde é polêmica, né? Existem muitos artigos científicos que relacionam o consumo de carne bovina e suína ao câncer e a problemas cardiovasculares. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já se manifestou sobre isso, alertando para os riscos. Por outro lado, muitos estudiosos afirmam que o risco está nas carnes processadas. Eu não quero entrar nessa polêmica, mas sem dúvidas um dos motivos de querer parar de comer carne foi para colaborar com minha saúde. Não tenho dúvidas de que comer grãos, frutas, legumes e verduras frescas é bem mais saudável.

Por fim, existe a questão do trabalhador da indústria da carne. Esse é um assunto que eu ignorava até agora, mas desde que comecei a pesquisar sobre tudo o que envolve consumo de carne, me deparei com um cenário injusto e brutal contra esse trabalhador. Para vocês terem uma ideia, recomendo a leitura desse artigo e desse aqui sobre problemas em relação a acidentes, condições de trabalho e falta de indenização da empresa, carga horária excessiva e muitos outros problemas. Eu não compro roupas de marcas que usam trabalho escravo, da mesma maneira não me sinto bem consumindo carne produzida com mão-de-obra em condições injustas como essa.

“Ah, Sarah, mas você parar de comer carne não vai mudar isso em nada. Você é só uma pessoa, a questão é muito mais ampla”. Eu sei disso, eu não sou ninguém para mudar toda essa triste situação que comentei rapidamente aí acima. Mas parando de consumir carne eu paro de colaborar com tudo isso, paro de patrocinar todas essas coisas. Pode não fazer muita diferença para o sistema inteiro, mas faz muita para mim e talvez, com isso, faça alguma diferença (mesmo que pequenininha) para as pessoas ao meu redor também.

 

3 meses reduzindo o consumo de carne, rumo ao vegetarianismo, mudou o que na minha vida?

Parece pouco tempo, mas em três meses eu consegui perceber algumas mudanças.

Primeiro, na minha saúde: 1 – eu me sinto mais leve. Não quero dizer que emagreci, quero dizer que não me sinto inchada e com um peso no estômago constantemente desde que reduzi o consumo de carne. Vários estudos afirmam que a carne vermelha demora mais para ser digerida e creio que posso dizer que testei  isso em mim mesma, minha digestão é muito melhor agora que não como tanta carne. 2 – não tenho mais problemas intestinais. “Ai, não acredito que você vai falar disso”. Gente, vou falar sim porque isso é importante. Para usar palavras bonitinhas, eu sempre tive o “intestino preguiçoso”. Acontece que não era meu intestino que era preguiçoso, era minha alimentação que não estava equilibrada. Há três meses não tenho problema nenhum com isso e quem sofre desse problema vai entender a felicidade que é estar livre dele. 3 – me sinto mais disposta. Tenho que reconhecer que isso não é só por causa da redução da carne. Também tenho reduzido o açúcar, tenho bebido muita água e me alimentado melhor. Mas incluo a redução da carne no pacote de coisas que me fazem estar mais bem disposta.

Segundo, as economias: eu sempre achei que ser vegetariano era “coisa de rico”, não sei por que acreditava nisso e não sei por que fazem a gente acreditar nisso. A verdade é que tenho economizado muito nas compras do mês desde que comecei a reduzir o consumo de carne. Poucos quilos de carne são suficientes para o mês inteiro. Nem preciso falar muita coisa, apenas façam as contas baseados em quanto vocês gastam em carnes por semana e o quanto conseguiriam comprar de verduras e legumes com esse dinheiro.

Terceiro, minha alimentação e meu paladar: 1 – eu sempre comi legumes, frutas e verduras, tem uma ou outra coisa que não gosto, mas nunca foi um grande problema para mim incluir esses alimentos nas minhas refeições. Porém, agora eu tenho experimentado muito mais coisas novas e aprendido a gostar do que antes eu não ia muito com a cara. Acreditem, gostar ou não gostar de alguma comida é, na maioria dos casos, questão de hábito (às vezes a gente não vai gostar nunca mesmo). 2 – Antes eu achava que uma refeição sem carne ia ser incompleta e não ia matar minha fome, hoje percebo que estava enganada, posso comer um prato de arroz, feijão e uma salada bem variada e caprichada e ficar completamente satisfeita. Nem vou entrar na questão dos nutrientes, porque existem milhões de artigos na internet mostrando que não é necessário comer carne para obter a tão polêmica proteína, por exemplo. 3 – Não tenho a menor vontade de comer carne bovina mais. Apesar de ainda estar comendo carne duas vezes na semana, como contei anteriormente, a carne bovina é a primeira a ser deixada de lado. Pode parecer inacreditável para vocês, mas o sabor dessa carne não tem me interessado nem um pouco. 4 – Estou aprendendo receitas novas! Fico vasculhando os canais do Youtube e sites que ensinam receitas vegetarianas e, aos poucos, estou conseguindo variar o cardápio. Não vou mentir, preciso variar mais e aprender mais coisas, mas aos poucos estou aprendendo.

 

Enfim, estou no começo dessa mudança de vida e até agora estou conseguindo cumprir meus propósitos. No futuro, quando eu finalmente tiver eliminado a carne do meu cardápio, volto para contar como estão as coisas. Não se preocupem, não serei a chata que vou obrigar alguém a se tornar vegetariano. Mas também não quero ser a chata que espanta os chatos que obrigam os outros a comerem carne (rs).

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2 comentários sobre “Rumo ao vegetarianismo

  1. Pingback: Caminhos do vegetarianismo: alimentação e elitismo #1 |

  2. Pingback: Documentários bacanudos que vi na Netflix (e no Youtube) #2 |

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