A confissão de Leontina

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Ao invés de uma citação, essa semana resolvi compartilhar a história do conto que eu mais gostei do livro “Melhores Contos”, da Lygia Fagundes Telles. Terminei de ler esse livro há alguns dias e gostei muito de todos os contos (recomendo!), mas esse foi o que mais me chamou a atenção. Se você não gosta de saber histórias antes de ler e pretende ler esse livro, então é melhor não continuar a leitura desse post. Volte em outro momento.

O conto “A confissão de Leontina” começa com essa personagem dizendo que vai fazer uma confissão. Parece que a confissão dela é dirigida à própria Lygia, porque ela fala: “se a senhora não pode ajudar, pelo menos não fica atormentando como fazem os outros”. A confissão é de um crime, Leontina matou um homem. Por isso ela está presa. O homem era rico, mais ou menos conhecido, ela é uma pobre coitada.

Para contar porque e como matou o homem ela começa sua história na infância. Conta sobre sua família: a mãe, que trabalhava duro para sustentar ela e seus dois irmãos; o irmão mais velho, que na verdade era um primo, mas foi criado como irmão; a irmã mais nova, que tinha uma condição especial desde que caiu certa vez, ela quase não falava e sua diversão era caçar minhocas. O irmão estudava, queria ser médico e a mãe fazia de tudo para que ele conseguisse alcançar esse objetivo. Ela, Leontina, ajudava a mãe nos trabalhos e, principalmente, no trabalho de dar tudo de bom e melhor para o irmão. Ele tinha vergonha de Leontina, não gostava de ser visto com ela em público.

Um dia a mãe morreu e os três ficaram sozinhos. Leontina começou a trabalhar o dobro para poder continuar sustentando o irmão e possibilitando que ele fosse estudar Medicina, como tanto queria. Ele terminou o colégio e se mudou para “ser doutor”, prometendo que depois buscaria Leontina. Isso nunca aconteceu. Ela estava sozinha, a irmã mais nova também morreu. Resolveu, então, ir atrás do irmão, tentar encontrar ele numa cidade grande, o que era praticamente impossível. Não encontrou o irmão (senão anos depois, ele fingiu que não a conhecia), mas encontrou homens que com “boa vontade de ajudá-la” se aproveitaram dela em vários sentidos. No começo nem dá para dizer que ela se dava conta disso, por exemplo, ela “se apaixonou” por seu “benfeitor”. Mas aos poucos foi se dando conta de como eram os homens.

Leontina vivia na pobreza. Ganhava pouco trabalhando como dançarina. Um dia parou em frente à vitrine de uma loja, hipnotizada por um vestido lindo que havia visto. Um homem se aproximou e ofereceu para comprar o vestido para ela. Ela aceitou e mais ou menos sabia que teria que dar algo em troca. Só que o preço lhe pareceu muito alto e Leontina se recusou. O homem achou um absurdo a recusa de Leontina e começou a bater nela, seguramente ele a mataria e ela, pobre e sozinha, seria mais uma mulher morta por aí. Mas ela conseguiu se defender e o matou. Foi legítima defesa, é verdade, mas ninguém acredita nisso. Para a polícia ela é uma puta que tentou roubar um senhor tão distinto e acabou o matando. Leontina está presa e provavelmente não será solta.

Eu li esse conto com um aperto no coração, pensando em quantas Leontinas existem e existiram. Em quantas mulheres pelo simples fato de serem mulheres tornam-se vítimas por toda a vida. Que sensiblidade de Lygia Fagundes Telles escrever esse conto com tantos detalhes (eu resumi a história aí em cima), acolhendo Leontina. Imagino a autora sentada frente à personagem, segurando suas mãos e dizendo: “eu acredito em você. Você é a vítima, não a criminosa”.

Quis compartilhar essa história para nos lembrarmos de olhar todos os dias para as Leontinas, para nossas irmãs, para nós mesmas e lutarmos contra essa estrutura machista que aprisiona a todas nós.

Boa semana para vocês.

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