As coisas verdadeiramente difíceis

 

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Oi, gente!

Faz um tempinho que não começo a semana com alguma citação. Já contei aqui que costumo anotar trechos dos livros que leio. Gosto de escrever pensamentos interessantes que encontro em minhas leituras no meu caderno de anotar a vida.

(Um parêntesis: desde que li “A Casa dos Espíritos” (Isabel Allende) chamo meus diários (que não são bem diários, mas lugares de anotações aleatórias) de “cadernos de anotar a vida”. Era assim que Clara, uma das personagens principais, chamava seus diários. Eu gostei e copiei.)

Bem, ando meio pensativa (mais do que o normal) e isso às vezes me faz lembrar de alguns desses trechos. Esses dias, estava me lembrando desse pequeno parágrafo de um conto do Julio Cortázar. O conto se chama “O perseguidor” e a história é sobre um músico muito bom, mas cheio de conflitos. Hoje não é um dia que eu queira resenhar livro aqui, apenas recomendo que leiam, porque é muito bom. Quero só compartilhar esse pensamento que tem rondado minha mente. Vejam:

“- O problema é que eles se acham sábios – diz de repente. – Eles se acham muito sábios porque juntaram um montão de livros, e comeram todos. Isso me faz dar risada, porque na verdade são boa gente e vivem convencidos de que o que estudam e o que fazem são coisas difíceis e profundas. No circo é a mesma coisa, Bruno, e com a gente é a mesma coisa. As pessoas acham que algumas coisas são o máximo da dificuldade, e por isso aplaudem o trapezista, ou me aplaudem. Eu não sei o que imaginam, que eu estou me arrebentando para tocar bem, ou que o trapezista rompe os tendões cada vez que dá um salto. Na verdade, as coisas verdadeiramente difíceis são outras tão diferentes, tudo o que a gente acha que pode fazer a qualquer momento. Olhar, por exemplo, ou compreender um cão ou um gato. Essas são as dificuldades, as grandes dificuldades. Ontem à noite aconteceu de eu me olhar neste espelhinho, e garanto que foi tão terrivelmente difícil que quase me jogo da cama. Imagine que você está se vendo; só isso basta para ficar frio durante meia hora. Na verdade esse cara não sou eu, no primeiro momento senti claramente que não era eu. Eu sentia isso, e quando a gente sente alguma coisa… Mas é como em Palm Beach, em cima de uma onda despenca em você a segunda, e depois outra… Você nem acaabou de sentir e já vem outra, vêm as palavras… Não, não são as palavras, é o que está nas palavras, essa espécie de cola-tudo, essa baba. E a baba vem e cobre você, e o convence que o do espenho é você. Claro, mas como entender? Mas se sou eu, com meu cabelo, com esta cicatriz. E as pessoas não entendem que a única coisa que aceitam é a baba, e por isso acham tão fácil se olhar no espelho.”

Julio Cortázar – O perseguidor (As armas secretas – contos)

p. 102-103

Realmente ignoramos a dificuldade de olharmos para nós mesmos, talvez com medo do que possamos encontrar. Ou talvez por imaginar que isso não é tão importante, ou não é tão difícil, que vamos conseguir fazer isso com tranquilidade em qualquer momento. Mas na verdade é meio assustador, não acham?

Boa semana cheia de pensamentos para todos!

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