Sobre a morte – Saramago

Pode ser estranho pensar na morte quando estamos cheios de saúde. Trabalhamos, viajamos, conhecemos pessoas, nos relacionamos. Estamos bem, todos ao nosso redor estão bem. Não tem motivo para pensar na morte. Para que pensar em algo tão ruim?

Sim, estamos bem, estamos vivos. Mas um dia não estaremos. Quando tudo está bem sentimos ainda mais forte a sensação equivocada de que somos eternos, de que nada pode nos atingir, ou às pessoas que amamos. E talvez todas as nossas atitudes diárias sejam permeadas por essa certeza de que somos imortais.

Eu costumo pensar na morte com certa frequência. Não na minha morte especificamente, mas na morte em geral. Como penso na vida de vez em quando, também penso na morte. Na verdade, acho meio difícil pensar na primeira sem considerar a segunda. Isso faz de mim uma pessoa meio mórbida? Não sei. Mas acredito que ter a morte em vista muda totalmente o jeito como encaramos nossa vida aqui na Terra. Veja bem, não quero dizer para entrarmos numa tristeza profunda pensando que un dia vamos morrer, mas talvez seja interessante ver a nós mesmos e as pessoas ao nosso redor como seres finitos, mortais, com uma data de validade que ninguém sabe qual é. Talvez isso mude nossa perspectiva sobre o que é, de fato, importante.

Pensando na morte há pucos dias, me lembrei dessa citação do mestre Saramago, que escrevi em um dos meus cadernos de anotar a vida. Deixo ela para vocês pensarem também essa semana.

“A morte vem quando tem de vir… não sabemos… por uma doença, por um acidente, por qualquer coisa, e tanto pode vir aos [x]* de anos de idade como aos oitenta ou noventa e sete… a partir daí, mais ou menos, já toda a gente está morta. Mas imaginemos – como se imagina no livro – que a morte parava seu trabalho. – “Não trabalho mais” – e as pessoas diriam: “Ah, então vamos viver eternamente, que bom que vai ser e tal”, e esqueciam-se de algo tão simples como isto: uma eternidade significaria uma velhice eterna, porque como você não pode parar o tempo, o que também levantava qustões muito complicadas – porque se você parasse o tempo, uma criança acabada de nascer ficaria exatamente como estava naquele momento, o que não é uma perspectiva muito agradável -, uma pessoa que estivesse quase a morrer ficaria naquele estado, mas todos os outros teriam que continuar a ser velhos e cada vez mais velhos. Você pode imaginar um velho de dez mil quatrocentos e cinquenta e três anos? Que corpo é esse? Que mente é essa? Com toda a engenharia genética que você lhe possa meter, não o salva… é muito simples, é muito simples.

O chato, o pior que tem a morte, percebe, é que você tenha de dizer: “Estou aqui e um dia já não estarei”, aqui, seja em que lugar for. Você passa em Lisboa, passa na rua, e acha a avenida da Liberdade bonita e olha para as árvores e diz: “Estou aqui, um dia já não estarei.”

José Saramago (José e Pilar – Milguel Gonçalves Mendes, p. 180)

*Por alguma razão incompreensível, no começo da citação eu não anotei bem, esqueci ou deixei passar, justo quando Saramago fala da idade de morrer. Como não estou com o livro aqui, não dá para conferir, mas acho que isso não altera o sentido da citação. 

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