Caminhos do vegetarianismo #1: alimentação e elitismo

Oi, pessoas!

Há muitos meses comecei minha trajetória rumo ao vegetarianismo. Publiquei sobre isso AQUI, porque achei importante me posicionar nesse aspecto, já que considero que o vegetarianismo não é apenas uma dieta, mas uma visão do mundo e da vida em sociedade, que ultrapassa a questão alimentar. Comecei essa transição aos poucos e, naquele momento, eu ainda comia carne duas vezes por semana. Estava em um processo de diminuir e disse que quando eliminasse de vez a carne da minha vida, escreveria outro post sobre o assunto. Sei que isso não interessa a muitas pessoas, mas sei que outras estão no mesmo caminho que eu, ou pensam em começar essa mudança também. Acho importante compartilhar informações e experiências. São muitas coisas para falar, afinal, é um período longo de transição alimentar. Então resolvi dividir em duas partes. A primeira começa agora.

 

O caminho até aqui

Desde que escrevi aquele post, em setembro do ano passado, continuei comendo carne duas vezes por semana até dezembro. A partir desse momento decidi reduzir novamente o consumo para uma vez na semana. Nessa altura, para ser sincera, já não fazia diferença se eu simplesmente eliminasse de vez a carne, mas me rendi à comodidade, principalmente porque foi um período em que passei na casa dos meus pais e quase não cozinhava. Mas me mantive firme no propósito e durante três meses comi carne uma vez por semana. Já não comia carne de boi e porco há algum tempo, então nessa única vez da semana em que eu comia carne era sempre frango ou peixe. Quando voltei para minha casa, em abril, ainda não tinha decidido eliminar de vez todo tipo de carne. Já não comprava nada, mas ainda estava naquela situação cômoda de pedir um peixe num restaurante, por exemplo, caso não tivesse opção vegetariana. De fato, comi peixe em duas ocasiões nesse período e passei bastante mal (fisicamente mesmo) após comê-los. Acho que era meu organismo dizendo que não aceitava mais aquilo. Foi então que me dei conta que definitivamente não estava mais comendo carne e que deveria sair dessa comodidade de “comer peixe socialmente”. Digamos, então, que há quase três meses eu não como nenhum tipo de carne, mas antes disso eu praticamente já não estava comendo.

Isso significa que eu sou vegetariana? Sim e não. Não quero complicar o texto com todos as definições de quem come o que. Há inúmeras discussões sobre esses conceitos. Então vamos falar da compreensão que é mais popular atualmente. Ovolactovegetariano é alguém que não come carne, mas consome ovos e leite (e possivelmente outros produtos de origem animal). Vegetariano estrito é alguém que não come carne, não consome ovos, leite, mel, mas utiliza produtos de origem animal (uma roupa, um cosmético, um produto de limpeza, por exemplo). Veganos são pessoas que não consomem NADA de origem animal, nem alimentos, nem roupas, nem produtos, nada. Obviamente, no mundo que a gente vive é complicado ser 100% vegano. Imagine que você precise tomar um remédio, por exemplo, é muito provável que a empresa que o fabricou tenha testado em animais ou use algum produto de origem animal. Além disso, existem muitas coisas que a gente nem sabe que tem algo de origem animal e tem, então dizer que é 100% vegano é difícil. Mas os veganos tentam ao máximo não consumir produtos de origem animal.

Estou tentando um pouco fugir desses rótulos, primeiro porque acho que isso assusta as pessoas e pode criar algum tipo de barreira ou preconceito logo de cara. Segundo, porque não pretendo assumir nenhum papel de destaque de militante da causa (embora eu ache que todo mundo que não come carne já é um tipo de militante só por essa razão). Terceiro, porque estou em um meio termo disso tudo aí. No momento: não como carne; estou em processo de redução do consumo de leite; ainda consumo ovos; procuro sempre produtos que não sejam testados em animais e, de preferência, não tenham nada de origem animal. Poderia dizer que estou em transição para o veganismo, mas não acho que isso seja uma verdade sincera ainda, não sei quanto tempo poderia demorar e não quero prestar nenhum desserviço para a causa. Quando alguém me pergunta eu simplesmente digo que não como carne e se essa pessoa se interessa realmente em saber os motivos e fica curiosa por saber mais, aí sim, falo mais sobre o assunto.

O vegetarianismo é elitista?

Em todo esse tempo de transição, tenho lido e ouvido muitas discussões sobre o tema. Uma delas é sobre se o vegetarianismo/veganismo é elitista. Tenho muitos contatos de “gente de Humanas” e vocês imaginam como nós gostamos de problematizar tudo, então essa discussão geralmente vem com uma acusação, como se você, por querer se tornar vegetariano também fosse elitista. Já vi gente falando que enquanto o veganismo for elitista, não será adepta. Acho complicado esse tipo de posicionamento. A universidade é um espaço elitista e ninguém diz: só vou entrar numa universidade quando ela não for elitista, por exemplo.

Se eu acho o vegetarianismo elitista? Sim. Do ponto de vista de acesso a produtos, não. Muita gente acha que ser vegetariano é caro. Eu pensava isso também e não sei por que fazem a gente acreditar nessa mentira. Qualquer pessoa que frequente um supermercado, uma feira de rua, um mercadão, ou seja, qualquer pessoa que tenha que fazer compras para sua própria casa sabe que comprar carne é muito mais caro que comprar grãos, legumes, frutas. Não estou falando de nada orgânico, acho que esse é um outro debate, estou falando apenas de deixar de consumir carne. Para virar vegetariano, você não precisa consumir esses produtos processados, industrializados, “substitutos da carne”. Esses, sim, são caros e, na verdade, nem são muito saudáveis. Então, não, não é caro, é acessível, é mais acessível que comer carne.

Porém, considero elitista (ou um privilégio) por três motivos. Primeiro, o acesso à informação não é tão simples como algumas pessoas imaginam. E falo da informação em todos os níveis, a começar sobre o fato de saber que você não precisa de carne para viver, até dados nutricionais, acesso a um profissional da saúde que oriente, etc. Não é todo mundo que tem acesso a isso. Segundo, existe a questão do tempo. Comer comida vegana exige mais tempo na cozinha, isso é fato. Nem todo mundo dispõe desse tempo. uma pessoa que trabalha oito horas por dia e demora mais quatro horas no trajeto casa-trabalho-casa, nem sempre pode se dar ao luxo perder tempo na cozinha. Um pouco de organização ajuda, sim, congelar comidas, etc., mas é uma dificuldade a mais. Por fim, existe uma questão cultural que é: comer carne é sinal de fartura. Uma pessoa de classe média ou alta que comeu carne a vida inteira não consegue perceber isso, porque ter carne na mesa nunca foi uma dificuldade. Mas para uma pessoa que vive com pouca grana e talvez ainda tenha que sustentar uma família, ter carne na mesa é um sinal de fartura e felicidade. Um vegano de classe média talvez não entenda a satisfação que é o clássico frango assado de domingo na mesa de uma pessoa mais pobre. Lembro da minha própria vivência, não comia carne todos os dias na infância, porque nem sempre tínhamos dinheiro e lembro da felicidade da minha mãe em às vezes aparecer com uma carne moída para o almoço de quarta-feira. Comer carne é sinal de fartura, é um símbolo, é uma questão social e cultural que não pode ser ignorada. Mas é ignorada e muitas vezes menosprezada pelos vegetarianos.

Mas, então, porque é um privilégio eu não vou ser vegetariana? Claro que não! Para mim, o ideal é que justamente deixe de ser privilégio, deixe de ser elitista e se popularize. Que os veganos parem de pensar apenas na questão animal, importantíssima, e olhem também para o ser humano que está do lado dele. Os dois importam. E que as pessoas com o discurso “cuida dos bichinhos enquanto tem gente passando fome” se informe melhor e veja que você não precisa abrir mão de uma causa para apoiar outra e, mais, que o veganismo tem a ver com gente passando fome e exploração de pessoas também, não só de animais. Nesse sentido, considero ainda mais importante falar sobre esse assunto, popularizar a informação, expandir a discussão e construir uma ideia mais interseccional.

 

Sobre a alimentação

Ainda não tive a experiência de comer “substitutos da carne”. Em parte, por serem produtos caros, mas também porque não tive vontade até agora. Sei que muitas pessoas que param de comer carne precisam dessas imitações vegetais porque se sentem mais à vontade. Para mim é o contrário, quando resolvi parar de comer carne, não quis comer nada que me lembrasse a carne. Isso foi bom porque me ajudou também a experimentar novos alimentos e jeitos diferentes de comer os que eu já comia. Basicamente, aqui em casa vivemos à base de grãos, legumes, verduras e frutas. E como falei antes, ainda consumimos ovos e queijo.

Para mim, o maior desafio nem foi parar de comer carne, mas sim aprender a cozinhar sem carne. Agora tem sido mais fácil, mas no começo foi difícil e ainda estou aprendendo muitas coisas. Meu esposo e eu somos cobaias um do outro, testando comidas vegetarianas. Um canal no YouTube que tem me ajudado MUITO é o Presunto Vegetariano. Todas as receitas que testei até agora deram certo e ficaram muito boas.

Já me desacostumei completamente de comer carne e, na verdade, tenho até um pouco de nojo hoje em dia. Parece mentira, mas vocês vão ouvir muitos vegetarianos falando isso. O caso é que seu corpo simplesmente se habitua a não comer carne a tal ponto em que até o cheiro de um churrasco, por exemplo, se torna algo meio incômodo. Não vou sair do lado de ninguém que esteja comendo carne perto de mim, claro que não, mas ver a carne crua (isso sempre me incomodou, na verdade), me imaginar comendo e tudo isso, me causa um certo reboliço no estômago.

Outro ponto sobre a alimentação é o fato de comer fora de casa, mas vou falar sobre isso no próximo post, o que inclui não apenas comer em restaurantes, mas também a parte de comer na casa de outras pessoas. No próximo post também conto como está sendo a questão da saúde. Por enquanto, vou parar de escrever por aqui. Espero que esse post seja de algum incentivo para quem considere parar de comer carne, ou pelo menos, diminuir o consumo.

Até logo!

 

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Um comentário sobre “Caminhos do vegetarianismo #1: alimentação e elitismo

  1. Pingback: Caminhos do vegetarianismo #2 – alimentação, vida social e saúde |

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