Saúde mental na universidade

 

Faz tempo que quero escrever sobre esse assunto, provavelmente desde antes de terminar meu mestrado, em 2014. Demorei por muitos motivos, inclusive falta de tempo, mas talvez uma das razões mais importantes seja porque, por ter sido uma experiência tão recente naquela época, eu não conseguia organizá-la coerentemente nem para mim mesma. Com um pouco de distanciamento temporal (são sete anos desde que terminei a graduação e quase quatro desde que terminei o mestrado), e com o (auto)conhecimento que adquiri desde então, acho que é possível compartilhar minha experiência.

É necessário mesmo eu vir aqui contar minha experiência publicamente? Não sei, provavelmente não. Mas considerando que esse é um blog pessoal e, portanto, inevitavelmente falo bastante sobre mim aqui, também é meio desnecessário questionar se isso é necessário, eu apenas quero falar sobre o assunto. Porém, tenho um critério para compartilhar experiências pessoais, que é imaginar se o assunto pode ser útil para outras pessoas.

Durante esse tempo, tenho visto/lido muita gente contar como tem sido sua vida acadêmica, a parte boa, a parte ruim, as dificuldades em se manter psicologicamente saudável diante de tanta pressão. Todos esses relatos me ajudaram muito a não me sentir sozinha, a entender que eu não sou o problema e a pensar em como tudo poderia ser diferente para outros jovens que têm ingressado na universidade, ou que pretendem seguir como acadêmicos. O meu será só mais um desses relatos, mas espero que alcance pessoas que no momento também se sentem sozinhas. Não é que fazer um curso de graduação ou pós-graduação seja por si mesmo um causador de problemas, muito pelo contrário. Porém, é fato que a estrutura desses cursos e o próprio espaço da universidade são excludentes, tornando difícil a experiência (e não raras vezes a permanência) de muitos estudantes A última publicação no blog da Karina Kuschnir me incentivou a finalmente tirar esse relato da minha cabeça e colocar aqui no blog.

Acredito que o ápice da minha história acadêmica até hoje seja o mestrado, por vários motivos, entre eles a razão óbvia de ser o grau mais avançado que alcancei na minha educação formal até o momento. Foi também o ápice da minha ansiedade, mas para falar sobre o mestrado, preciso antes falar sobre a graduação. Porque não consigo separar os dois momentos, entendem? Como entrei no mestrado logo que terminei a graduação, para mim foi uma longa experiência de seis anos e meio. É meio como num jogo de videogame, em que você precisa enfrentar obstáculos grandes para mudar de fase, mas não vou me aprofundar nessa analogia, porque não entendo nada de jogos. Vocês já entenderam. Apesar de ver esse período da minha vida como uma experiência única, resolvi separar minhas publicações aqui no blog em três: essa que é meio introdutória, sobre a graduação e sobre o mestrado. O objetivo é apenas não fazer vocês ficarem lendo por nove horas.

Vejam bem, não quero só falar sobre problemas. Minha graduação, por exemplo, foi uma das melhores experiências da minha vida, não só por causa do meu crescimento intelectual, mas porque conheci pessoas incríveis (algumas que permanecem na minha vida até hoje), aprendi sobre muitos assuntos que vão além da formação acadêmica e tudo isso é maravilhoso. Também não posso deixar de reconhecer que sou uma pessoa privilegiada por ter feito um curso superior em uma universidade pública, considerando a dificuldade que é, em nosso país, para um(a) jovem que sai de anos de uma educação pública precária entrar em uma boa universidade.

Não deveria ser um privilégio, educação pública gratuita é um direito de todos. Mas ainda é. Meu privilégio vem de antes, porque mesmo estudando a vida toda em colégios públicos, eu não tinha nenhuma outra responsabilidade além de estudar. Por exemplo, não precisei trabalhar na adolescência, não tinha que ajudar no sustento da casa. Após o colégio, estudei dois anos em um cursinho comunitário (era difícil, era longe, às vezes faltava de aula porque não tinha dinheiro para ir), mas tive a oportunidade de fazer. Também sempre fui incentivada a estudar, a ler bastante, a ter o interesse por entrar na universidade, a ver isso como uma possibilidade real e possível. Parece pouco para algumas pessoas, mas não é. Por todos esses motivos, em 2008 entrei no curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo.

Para quem não sabe, a Unifesp antigamente era basicamente o curso de medicina em São Paulo (bastante tradicional) e outros poucos cursos da área da saúde. Foi com o projeto de expansão das universidades federais, colocado em prática no governo Lula, que outros campi e outros cursos começaram a ser incorporados. Entrei na universidade bem nesse momento, sou um dos frutos da expansão das universidades. Em 2008 o campus de humanidades da Unifesp era um bocado de salas, um teatro e um galpão num bairro da periferia de Guarulhos. Sou da segunda turma de Ciências Sociais e tenho muito orgulho de fazer parte dessa história (quem tiver interesse em saber sobre as disputas internas na Unifesp, por exemplo, sobre professores e alguns alunos defendendo a retirada da universidade da periferia porque “não seria um lugar adequado”, me pergunte depois, isso é um assunto à parte). Tenho orgulho da minha formação, da universidade onde estudei, dos professores que tive (ou pelo menos parte deles).

Entrar em uma universidade que está ainda em construção é uma experiência diferente de entrar em outra que já está consolidada há muitos anos. É difícil para alunos e professores. Entre nós, costumávamos brincar que éramos cobaias, testando para ver o que daria certo ou errado. Mas se existiram problemas específicos desse contexto, também existiram problemas que não tiveram nada a ver com o assunto. No meio de todos esses problemas, obviamente, a parte mais afetada é o estudante e é aí que questões de saúde mental e emocional começam a aparecer.

É nesse momento que começarei a contar, de fato, minha experiência. Mas é nesse momento também que termino esse texto por hoje e volto em breve com a segunda parte. Honestamente, por mim, não faria esse suspense todo, mas sei que a maioria das pessoas não têm paciência para textos muito longos, então para não ter que cortar o assunto em um ponto que não faz sentido ser cortado, aguardo vocês para continuar essa conversa depois.

Um abraço.

 

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11 comentários sobre “Saúde mental na universidade

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  5. Oi Sarah! Estou nessa vibe de desgaste emocional por causa da faculdade. Último ano, correria com tudo, e como se não bastasse, cursando Psicologia, que mexe demais com a gente (tanto pelas pessoas que a gente lida, tanto por causa das teorias que a gente estuda…). Estou exaustíssima, comecei a escrever meu post de despedida do blog nesse momento (com dor no coração, mas entendendo que é necessário). Aguardo a parte 2 ^-^

    • Oi, Marina! Obrigada pela visita e por seu comentário. Estou nesse exato momento acabando a parte dois, acho que publico hoje ainda. Eu tinha um blog antes desse aqui que ficou abandonado durante minha graduação, acabei me desfazendo dele. Entendo bem essa pausa necessária que você fala. Espero que apesar da pausa, seu blog continue “no ar” pra eu ler o que você já escreveu e quando esse momento turbulento passar, você volte. Esses nossos cantinhos para nos expressarmos são essenciais. Desejo a você muita força pra terminar seu curso, agora falta pouco! 😉 Um abraço.

  6. Sarah, querida. Obrigado pelo texto. Em muitos aspectos minha trajetória tem sido similar ao que foi a sua.
    Esperando pela continuação.

    Ternos abraços

  7. gostei muito dessa primeira parte, cheguei aqui através da Karina essa semana, que conexões lindas as pessoas nos trazem, né?
    me vi contemplada quando você fala sobre ter sido privilegiada, ainda que estudando em colégios públicos, por não ter outra obrigação além de estudar. comigo aconteceu assim também e, apesar de meus pais não terem falado muito sobre faculdade, acabei conhecendo esses caminhos pelo privilégio que tinha de não precisar trabalhar. tô no final da graduação e pensando na pós, todos os esses relatos tão íntimos sobre esses assuntos chegam a mim de uma forma muito bacana, ajuda, sabe? obrigada por partilhar e espero pelos próximos textos! um beijo de Belém-PA.

    • Oi, Pâmela! Obrigada pela visita e por deixar seu comentário! Realmente essas conexões são muito preciosas e precisamos delas. Vejo como uma rede de apoio mesmo, sabe? No meio de tanta coisa ruim, poder encontrar pessoas com quem compartilhar ideias, sentimentos, é algo realmente lindo. Também acho que todos esses relatos ajudam. Como eu falei no texto, conhecer histórias de outras pessoas me ajudaram bastante também, por isso me animo a compartihar minhas experiências. Muita força para você nesses últimos momentos da graduação, sei como pode ser difícil. Um beijo.

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