Saúde mental na universidade – graduação

Oi, gente! Essa é a segunda parte contando minha experiência na vida acadêmica, relacionada à saúde emocional. Para ver a primeira, clique AQUI. Aviso de texto grande, obrigada pela paciência em ler.

Lembro muito bem do meu primeiro dia de aula na graduação. A matéria era Leitura e Interpretação de Textos Clássicos, obrigatória no primeiro semestre para todos os cursos. Havia uma proposta interdisciplinar de juntar alunos de Filosofia, História, Ciências Sociais em uma mesma disciplina, porque supostamente, todos deveriam saber ler textos clássicos. Não vou problematizar agora o fato de que ler um texto de Antropologia, por exemplo, é muito diferente de ler um texto filosófico. Ao meu ver, na prática, essa proposta não funcionava muito bem. Mas esse não é nosso tema de hoje.

Pois bem. Eram os professores de Filosofia que davam essa matéria, mas os alunos não escolhiam com qual professor queriam ter aula. A verdade é que isso nem seria possível, já que éramos todos novatos, perdidos, sem conhecer ninguém. O professor da minha turma era um tanto quanto metódico. Ele chegava, arrumava a mesa dele, se sentava e começava a falar. Numa aula com duração de quatro horas, ele não dava intervalo, porque supostamente isso nos faria perder o fio da meada. Ficávamos quatro horas sentados, lendo dois parágrafos de um texto difícil de Filosofia. Cheguei super animada para meu primeiro dia de aula. Saí de lá me perguntando: “o que vim fazer aqui?”.

Nessa mesma matéria, com esse mesmo professor, foi minha primeira avaliação. Um dos exercícios era falar sobre o famoso quadro A Traição das Imagens. Bem, agora eu sei que ele é famoso. Na época, eu e uns 70% da sala não sabíamos nem que ele existia. Na prova, a imagem do quadro, uma frase em francês sem tradução. Pensei: “como posso responder a questão se nem sei o que está escrito aqui?”, tentei me comunicar com colegas do lado, para ver se sabiam a tradução da frase. Ninguém sabia. Depois de vários murmúrios na sala, alguém que falava francês passou a tradução entre os alunos. Quem não cola não sai da escola, dizem. Terminei a prova sei lá como, fiquei o tempo todo me perguntando: “o que estou fazendo aqui?”.

Lembro ainda de outro professor, já no segundo ano da graduação. Um professor de política temido por todos os alunos, adorado pela maioria. Por alguma razão ele era visto como um deus, apesar da carga de leitura que colocava, equivalente às quatro outras matérias do semestre; apesar de tratar os alunos como lixo. Acho que a ideia geral era: “na faculdade é assim mesmo, o nível é outro. Professor bom é professor assim”. Durante dois semestres de aula com ele sofri dores constantes de estômago, uma gastrite nervosa. Particularmente, não ia muito com a cara desse professor e o ápice do meu desgosto foi quando ele fez um discurso para a sala, dizendo que nossas notas baixas em uma prova eram por inexperiência, segundo ele, as pessoas deveriam entrar na universidade mais velhas, depois de viajar, conhecer um pouco de outros lugares, fazer um curso de música, de idiomas, enfim… mais uma vez me questionei: “o que estou fazendo aqui?”.

Com esses exemplos não quero dizer que os professores são o problema, de jeito nenhum. Tive professores ruins, mas para ser honesta, a maioria dos meus professores foi ótima e poderia citar uns três ou quatro que de alguma maneira realmente transformaram um pouco minha vida, para o bem, não para o mal. Os professores, assim como os alunos, estão inseridos nessa estrutura precária da educação. Mas minha crítica é a seguinte: um professor que não procura entender seu contexto não é um bom professor. Na minha opinião, é nesse primeiro ponto que começamos a falar sobre saúde emocional. Fui professora por um curto período e sei que entender o contexto onde se está, levar em consideração as vivências dos alunos, sair de um pedestal imaginário são coisas bem difíceis de se fazer. Mas conseguimos identificar quando o professor ao menos tenta fazer esse esforço e quando não está nem aí.

Após a expansão das universidades federais, o contexto que temos nas universidades é de alunos muito jovens, boa parte oriunda de classes sociais mais baixas, sendo às vezes a primeira pessoa na família a entrar em um curso superior. Pense como é para esse jovem entrar em uma universidade e se deparar com um espaço totalmente elitizado e não apenas não se reconhecer ali, mas principalmente não ser bem acolhido. Muitos desistem. Vários que entraram junto comigo desistiram. Não posso mentir, eu mesma pensei em desistir.

Para falar um pouco do meu contexto específico, eu morava na região do Campo Limpo, em São Paulo. Para quem não conhece, é uma região periférica na zona sul. O campus da Unifesp fica literalmente do outro lado da cidade. Eu não tinha dinheiro para morar em uma república, não tinha carro, não recebia bolsa auxílio, demorava no mínimo quatro horas no trajeto para atravessar São Paulo, entre ir e voltar da universidade. Assim que me matriculei, uma tia começou a me ajudar financeiramente. O dinheiro que ela me dava era basicamente para o transporte. Sou eternamente grata a ela porque por causa dessa ajuda eu podia ir para as aulas todos os dias. Estudava no período vespertino, porque se fosse no noturno simplesmente não conseguiria voltar para a casa. Foi nessa época que comecei a trabalhar como freelancer, para conseguir mais dinheiro e tentar me mudar para perto da universidade. Apenas no terceiro ano consegui, fui morar em uma república com algumas amigas. Não era tão perto do campus ainda, mas passei a levar só meia hora para chegar. Na mesma época comecei a fazer iniciação científica e recebia uma bolsa de pesquisa. Minha vida acadêmica se transformou. Olhando meu histórico de notas da graduação é nítida a melhora do meu desempenho quando tive uma estrutura mínima para me manter na universidade.

Esse é o segundo ponto que influencia na saúde emocional do estudante. Se a universidade não oferece uma estrutura de permanência (moradia, transporte, alimentação), fazendo com que o aluno tenha que faltar às aulas, ou trancar um semestre, ou sei lá quantas possibilidades podem acontecer, isso certamente afetará seu psicológico. Essa é uma crítica ao projeto de expansão das universidades. Não o fato de ele ter sido implantado, obviamente. Mas em relação à falta de investimento, ao fato de que não basta ter um prédio com salas de aula.

Apesar de todas as dificuldades, ainda me considero uma pessoa privilegiada, como comentei no texto anterior. Foi difícil, mas ainda assim eu conseguia ir para as aulas todos os dias, consegui estudar no período vespertino, sem ter que me preocupar em trabalhar oito horas por dia em um trabalho formal. Tinha uma família que me apoiava, me deixava estudar em paz quando eu precisava, uma tia que me ajudava com dinheiro, outra que me ajudava comprando livros. A questão é: se para mim, com esse apoio, era difícil, imagine para quem não tem nada disso?

Obviamente não estou falando de alunos social e economicamente privilegiados, que ainda são a maioria nas universidades públicas, como sabemos. É possível que esses alunos tenham outras questões a levantar em relação à saúde emocional. Mas não posso falar do que não é minha realidade. Estou falando daqueles que de verdade necessitam de uma estrutura de permanência e não a encontram. Os que não desistem talvez tenham sua saúde emocional comprometida. São pensamentos que vão desde desistir do curso a desistir da vida. Não, não é exagero. Durante meus anos na universidade fiquei sabendo de pelo menos três casos de suicídio. Como isso pode ser aceitável?

Claro que a falta de estrutura também inclui falta de apoio psicológico. Durante minha graduação não havia psicólogo disponível no campus para atender os estudantes. Apenas quando eu já estava no mestrado foi que “essa novidade” apareceu (mas falo sobre isso depois). O fato é que um aluno que precisasse lidar com questionamentos advindos da vida universitária, ou precisasse conciliar problemas pessoais já existentes com esses novos problemas, não tinha a quem recorrer.

Durante meu período na graduação passei por situações pessoais/familiares muito sérias, que não vem ao caso comentar. Foi nesse momento em que problemas anteriores saíram do esconderijo do meu subconsciente e somaram-se aos novos e toda angústia e ansiedade que eu sentia por muito tempo começaram a fazer um pouco de sentido. Mas eu não tinha com quem conversar e censurei tudo isso, porque precisava ir às aulas, tirar notas boas, terminar o curso, fazer minha pesquisa de iniciação científica, entregar relatórios… Para mim, esse é o terceiro ponto que compromete a saúde emocional dos estudantes. Existe uma cobrança por excelência, mas não se oferece condições para que essa excelência possa se desenvolver.

É claro que não cuidei de mim mesma nessa época, mas também não sabia como fazer isso. A instituição em que eu passava a maior parte do tempo não possuía ferramentas que me ajudassem a entender que precisava me cuidar. Consegui terminar a graduação, mas não foi fácil. Na época eu não tinha muita ideia do quanto estava sendo difícil, quero dizer, não era algo racionalizado, eu apenas sentia. Hoje, olhando para trás, percebo que foi um esforço muito grande. Você pode dizer: “Sarah, mas você está reclamando de barriga cheia, você mesma diz que é privilegiada. A vida não é fácil, a gente tem que lutar para conseguir as coisas, fazer um curso de graduação não é fácil mesmo, é preciso se esforçar bastante, virar noites sem dormir, sofrer na mão dos professores, isso é normal”. Não, isso não é normal! É claro que estudar exige esforço, mas não é normal você sacrificar sua saúde física e mental para conseguir terminar um curso.

Sabem como se chamava a república onde eu morei durante a faculdade? Omeprazol. Pareceu engraçado colocar o nome de um remédio para o estômago na nossa república, já que todas nós o tomávamos e tínhamos problemas gástricos. Mas na verdade é extremamente triste que garotas de 20 e poucos anos tivessem que se entupir de remédios para conseguir se manter de pé estudando. Foi triste ver colegas da universidade desistindo do curso. É aterrorizante ver pessoas se suicidando porque não tiveram o apoio e acolhimento que necessitavam. É horrível pensar que um momento tão bom, útil e feliz na vida de um jovem – fazer um curso superior – se transforme em um problema, criando ou acentuando ansiedades e depressões.

Terminei meu curso com boas notas, com uma pesquisa de iniciação científica bem feita e elogiada, entreguei minha monografia, terminei tudo em quatro anos, com um mestrado à vista. Emocionalmente perturbada. Exausta. Foi assim que comecei o mestrado. Mas vou guardar essa história para a próxima publicação.

Não quero terminar esse texto com uma mensagem negativa. Até porque, como falei no texto anterior, apesar de tudo, o período da graduação foi uma época boa da minha vida, principalmente pelo conhecimento que adquiri e pelos amigos que fiz. Por causa do post anterior recebi mensagens de pessoas que estão finalizando a graduação e passando por momentos tensos. Então, se eu puder ajudar em alguma coisa, quero falar o que eu gostaria ter escutado na minha época de final de curso.

Primeiro, respire. Eu sei que os prazos estão aí, o orientador (a) talvez faça muitas cobranças, você já está cansada (o) querendo terminar tudo logo. Eu sei, passei por isso. Mas respire. Da mesma forma que em sua agenda estão marcados os trabalhos que você tem para entregar, as reuniões que você precisa participar, marque também os momentos para respirar. Sim, anote na agenda: de tal a tal hora eu vou cuidar de mim. Seja andar por aí, ir ao cinema, dormir (nossa, dormir!), tomar um café com sua mãe, não importa. Um momento que você não tenha que pensar nas suas obrigações.

Segundo, se aproxime de pessoas que tenham algo de positivo para trocar com você. Uma coisa que me ajudou muito na época da graduação foi me aproximar de pessoas com a realidade próxima da minha. Vocês sabem que as universidades públicas ainda são elitizadas. Me peguei muitas vezes comparando minha vida, minhas notas, minhas ações com as de quem vivia em  uma realidade completamente diferente, isso só me fazia ficar pior. Com os amigos que fiz não tinha esse tipo de comparação, a gente se entendia e rolava um apoio mútuo, para todos continuarmos ali, juntos e terminando nosso curso.

Terceiro, se está muito difícil continuar sozinho, peça ajuda. Não precisamos enfrentar nossos problemas sozinhos. Fale com um amigo, com um parente, com qualquer pessoa de confiança. Se for possível buscar ajuda profissional, busque, isso vai fazer toda a diferença.

Quarto, faça tudo dentro de seu tempo. Não vou falar que você não precisa correr, porque talvez essa não seja sua realidade. Por exemplo, eu terminei a graduação em quatro anos porque simplesmente era o tempo que eu podia me manter dentro da universidade, financeiramente falando. Mas se você pode estender esse prazo em mais um semestre, um ano, um ano e meio, e isso te ajudar a se manter saudável, por que não? Se apegue a esse clichê super verdadeiro: a vida não é uma corrida para ver quem chega em primeiro lugar. Respeite seu tempo.

Bem, é isso. Vou parar por aqui, porque já falei demais. Espero que contar um pouco minha experiência seja de ajuda para alguém, é só por isso que estou contando. Evitei falar de questões mais específicas da universidade em que estudei (greves, por exemplo, disputas internas, política), apesar de que foram situações importantíssimas em todo esse contexto que comentei, porque não queria que o texto ficasse mais gigante e porque estou tentando falar aqui desde uma perspectiva mais subjetiva e olhando para o macro, que é a realidade da maioria das universidades no Brasil. Na próxima publicação falarei um pouco sobre o mestrado e esse ápice de ansiedade que comentei no primeiro texto. Espero vocês.

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9 comentários sobre “Saúde mental na universidade – graduação

  1. Pingback: Saúde mental na universidade – mestrado |

  2. Querida! Que alento ler o seu blog, estou na reta final do mestrado, grávida de 20 semanas e exausta. Estou a poucas páginas de terminar, mas simplesmente não consigo, está bem complicado.Escrevo um pouco de cada vez para encerrar.Obrigada por isso, tenho me sentido muito mal, a todo momento questiono se fiz a escolha certa( apesar de eu ser a pessoa que mais estudou na minha família até hoje) e por que fui tão burra, não percebi isso, não aprendi aquilo a tempo, enfim uma porção de coisas.No fim sei que não tem nada a ver com inteligência, e que devo estar aumentando tudo o que estou sentindo.Enfim, exausta mas seguindo.Continue a escrever, ainda somos muito solitários na pós.bjão

    • Oi, Beatriz! Obrigada pela sua visita e seu comentário. Acho que poder externalizar esse sentimento de cansaço, ainda que seja com “desconhecidos” na internet, faz um grande bem, porque vemos que não estamos sozinhos. Cada um tem seus problemas específicos para lidar, mas essa vida acadêmica acaba nos unindo num sentimento parecido e é bom se sentir compreendida, não é? Já dá certo alívio mesmo. Entendo muito esses seus questionamentos sobre a inteligência. Perdi a conta de quantas vezes me perguntei durante o mestrado se eu merecia estar ali, o que estava fazendo ali, o quanto estava atrasada em relação às outras pessoas, etc… às vezes não podemos evitar esses sentimentos, mesmo sabendo que sim, também pertencemos a esse lugar., podemos e devemos ocupar esses espaços. Não é exagero seu, não. Você disse que está terminando o mestrado, foque no final então. Visualize o momento em que esse estresse vai acabar, ou pelo menos diminuir, que ele vai chegar. E cuide de você, não ignore nem menospreze seus sentimentos, eles são importantes. Um abraço!

  3. Sarah querida, amei muito os seus dois relatos! Hoje inclusive te citei de novo no meu blog! Espero que vc não se importe… Você escreve tão bem e tem uma forma tão delicada de tocar em questões importantes… muito agradecida de ver o seu fôlego- – só quem tem blog sabe como é difícil manter a disciplina de escrever nesse vazio-cheio que é a Internet pelo puro amor pela escrita e pelas histórias. Só te digo uma coisa: continue escrevendo! Hoje, amanhã, sempre! E manda um beijo meu para todas as meninas da República Omeprazol, se vc ainda tiver contato com elas. Quem nunca tomou omeprazol que se apresente…

    • Karina, querida! Muito obrigada pelo carinho de sempre. Acabei de ler a publicação no seu blog, fiquei meio envergonhada, hahaha, mas que bom que meus relatos têm alcançado tanta gente, por causa de você principalmente. Precisamos dessa troca, nesse vazio-cheio que é a internet já tem muito ódio sendo disseminado.
      Escrever é meu jeito de organizar a mente, então não pretendo parar mesmo, se não enlouqueço, rs, mas às vezes realmente é difícil manter esse ritmo, né? Estou tentando manter uma publicação por semana, vamos ver se consigo continuar assim. Obrigada de verdade pelo apoio. É legal ver que a ordem que eu coloco no mundo ao escrever, faz sentido pra outras pessoas também.

      Ah, as meninas da Omeprazol… rs… somos amigas até hoje. É daquelas amizades pra vida toda! Algumas ainda tomam omeprazol, hahaha. Eu, felizmente, saí dessa vida.

      Um abração.

  4. Pingback: Vício terrível | Karina Kuschnir

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