Comentários aleatórios sobre o que estamos vivendo

Semana passada eu deveria ter escrito e publicado aqui sobre o livro Cartas Para a Minha Mãe, seguindo com os comentários sobre meu desafio literário desse ano. Mas não consegui escrever. Alguém conseguiu fazer alguma coisa a não ser pensar obcecadamente no domingo das eleições? Sim, a gente vai vivendo, mas com esse sentimento de angústia. Parar de trabalhar não dá, já que os boletos continuam chegando, mas parece que todo o resto fica meio suspenso. Sei que não sou só eu que tenho essa impressão.

Pois bem, essa semana, depois de todos os resultados de domingo, ainda continuo sem ânimo para escrever, mas decidi vir aqui comentar algumas coisas num tom meio de desabafo, na verdade, mas também me posicionando. Não confio em pessoas que não se posicionam. Ninguém é neutro em nada. Existem situações que não são 8 ou 80. Concordo, entre 8 e 80 ainda existem vários posicionamentos, mas não deixam de ser posicionamentos. Existem outras situações que infelizmente é questão de decidir, sim, um ou outro lado. Seja como for,  nunca existe neutralidade.

Mas o que fazemos com isso, então? Se não existe neutralidade, se eu tenho um lado, significa que devo defendê-lo a todo custo, inclusive a custo do sofrimento e direitos de outras pessoas? Não é o que eu acredito. Acredito que em uma sociedade democrática, podemos defender que haja condições para que todos possam, em alguma medida, ter seus interesses atendidos (desde que não atentem contra a vida e segurança de outras pessoas). O primeiro passo para que essas condições sejam possíveis é por meio da justiça social. Poderíamos entrar numa discussão eterna sobre de que forma se pode promover a justiça social, mas não estou interessada em fazer isso hoje. Basta dizer que esse é meu posicionamento: a favor da justiça social. A favor de um Estado que garanta educação, saúde, trabalho, cultura, que se preocupe com o mais pobre, que se preocupe em pagar a dívida que tem com a população negra, que combata o racismo, que se posicione contra o machismo…

Desde que comecei a votar, votei em candidatos com propostas mais próximas disso. Isso quer dizer que concordo com absolutamente todos os pontos dos projetos desses candidatos (as) ou partidos? Óbvio que não. A sociedade é formada por pessoas diversas, com interesses diversos. Os partidos sempre vão tentar, de alguma maneira, abranger essas diferenças. Alguns assuntos podem não me interessar ou me levar a discordar e a criticar. Não tem problema. É bom viver em um lugar onde ainda podemos realizar críticas, não é mesmo? Críticas sérias e embasadas são muito saudáveis. Enfim, sempre me posicionei por meio do meu voto, mas não só. Minhas atitudes cotidianas, seja na época que fui professora, ou nos trabalhos voluntários que realizei, ou com minha família e amigos, ou como estudante na universidade (inclusive considerando o que decidi estudar), absolutamente todas as minhas atitudes estão embasadas na ideia de que enquanto estamos nesse mundo, temos que agir para que ele seja um lugar possível de se viver em sociedade.

Não digo essas coisas para me gabar, para dizer: “olha, como eu tenho pensamentos nobres e sou superior por causa disso”. Não. Sou imperfeita, faço um monte de coisas erradas. Me equivoco muitas vezes, mudo de opinião e sou contraditória. Mas fui ensinada desde pequena a ter esses valores e por isso tento colocá-los em prática. Isso não nasceu comigo, eu aprendi. Aprendi na igreja, pois cresci frequentando uma igreja Batista. Sim, a igreja tem muito a ensinar e não todos os cristãos são intolerantes (dá para considerar essas pessoas cristãs?). Aprendi na escola e na universidade, com professores e colegas. Aprendi com minha mãe, que aprendeu com minha avó a respeitar as pessoas. Aprendi com meu pai a me indignar.

Aqui preciso fazer um parêntesis grande, porque, como vocês sabem, meu pai faleceu recentemente. Minha família e eu ainda estamos em um processo de luto, porque lidar com a morte de alguém querido não é como lidar com um contratempo durante o dia. Preciso dizer que várias vezes me senti desrespeitada em meu luto, ouvindo ou sabendo de comentários de terceiros contra meu pai, que foi um homem que cometeu muitos erros, é verdade, mas sempre foi uma ótima pessoa. Ele me ensinou a me indignar. Meu pai, homem negro numa sociedade racista. Tanta coisa poderia ter dado errado em sua vida e quando olho para sua história vejo que deu tudo certo. Meu pai sempre participou de sindicatos, associações. Sempre ajudou outras pessoas, mesmo quando não tinha para ele próprio. Ele sempre votou no PT. Por esse motivo, tem gente acha que se eu voto ou já votei no PT é por causa do meu pai. É por causa dele mesmo, não porque ele me obrigou a nada, mas porque ele me ensinou muitas coisas, uma delas é questionar. Tenho orgulho disso.

Pois bem, com todos esses valores que tenho e tento colocar em prática, não poderia jamais votar em alguém como o candidato que passou em primeiro lugar para o segundo turno, que me recuso até a mencionar o nome. Sei que isso causa indignação em muitas pessoas e sei que muitos que leem esse texto agora vão se identificar se eu começar a falar daqueles parentes ou conhecidos que repetem sempre os mesmos argumentos, seja por falta de senso crítico, seja porque realmente defendem ideias totalitárias. Meu voto no primeiro turno não foi pelo Haddad. Foi dificílimo decidir, nesse contexto, em quem votar. Não porque não houvesse quem mais se aproximasse do que eu acho que deva defender um futuro presidente, mas por conta de todo esse debate de voto útil. Para mim foi realmente uma crise decidir em quem votar, mas no final votei em quem eu acreditava de verdade. Num momento em que estamos discutindo tanto sobre a democracia, não consegui abrir mão do direito de votar no que acredito.

Meu voto no segundo turno é contra aquele lá. É verdade que muitos pontos do projeto do Haddad têm meu apoio. Mas poderia ser qualquer um no lugar do Haddad, inclusive, poderia ser alguém de quem discordo profundamente, como o Alckmin, por exemplo, eu votaria nele. Votaria em qualquer um. Porque o outro candidato defende coisas que são incompatíveis com minha formação cristã. Me admira muito que tantas pessoas que se dizem cristãs concordem com um discurso tão violento e excludente. Porque, vejam bem, o mais novo argumento dos eleitores daquele lá é que paremos de ser “dramáticos”, porque o indivíduo não vai sair por aí matando homossexuais ou negros, ou estuprando mulheres. Não se trata disso. Trata-se de que seu discurso legitima outras pessoas, que já são violentas, racistas, misóginas, homofóbicas a tomarem essas atitudes. Não é algo que vai acontecer, é algo que já está acontecendo e pode se agravar.

Nem vou entrar no mérito de que ele tem um projeto fraco, basta ler, basta olhar para sua carreira como político, basta ver suas entrevistas quando ele não consegue nem responder sobre o que está em seu plano de governo. Também não vou entrar no mérito das inúmeras comparações sendo feitas entre ele e Collor. Também não vou entrar na questão da perda de direitos trabalhistas, defendida por seu vice (e surpreendentemente apoiada por pessoas que, até onde eu sei, não são ricas, são trabalhadoras assalariadas). Não vou entrar na discussão anti-PT e nesse debate de sociedade polarizada. Minha maior dor no coração, minha maior tristeza e que me fez começar esse texto é pensar nas pessoas.

Primeiro, pensar nas pessoas ao meu redor. Pessoas que defendem um discurso violento com qualquer desculpa e acham isso muito OK. Para mim, em muitos casos, tem sido uma grande decepção. Mas também penso nas pessoas próximas de mim, pessoas queridas. Tenho medo, porque nada me garante que essa violência expressa pelo meu vizinho, ou por algum conhecido, ou até por algum parente não possa um dia se voltar contra mim, ou contra minhas irmãs, por sermos mulheres, por exemplo. Ou contra meus amigos por “serem de esquerda”, ou contra um colega por ser gay. Nada me garante que essa violência não possa, eventualmente, ser contra meu esposo, que é estrangeiro (“esses imigrantes, por que não voltam para seu país?”). E ainda que não atinja a mim ou às pessoas próximas de mim, diretamente, como posso apoiar uma pessoa que legitima um discurso que banaliza a violência, que banaliza as vidas de outros seres humanos? Não posso. Não vou.

Tenho tentado relativizar um pouco. Quem vota no tal candidato não é, necessariamente, um fascista. Embora, muitos fascistas de verdade apoiem esse candidato, há pessoas que sei que vão votar nele porque acreditam ser mesmo a melhor opção. São pessoas que talvez preferem fechar os olhos para certos aspectos, porque sentem alguma segurança de outro lado, ou porque o ódio delas contra o PT é muito maior, ou porque estão em situações de privilégio e por isso acham que não serão atingidas pelas prováveis consequências que virão com um governo como o que defende seu candidato. Tento relativizar, nem sempre consigo. Tento relativizar, mas não isento essas pessoas de suas responsabilidades. O sangue derramado, a perda de direitos, as violências cometidas apoiadas no discurso desse candidato estarão na conta dessas pessoas.

Para, finalmente, terminar esse texto que talvez não tenha uma linha lógica muito evidente (como eu disse, era mais um desabafo), quero comentar duas coisinhas rápidas. Primeiro, que o medo não pode ser nosso guia. Tenho falado com muitos amigos nos últimos dias e todos temos medo do que temos visto e ouvido. O medo é uma ferramenta usada tanto por pessoas da própria esquerda, quanto por pessoas que apoiam o tal candidato. Alimentar o medo é uma estratégia. Por mais difícil que seja, vamos tentar respirar fundo e continuar. Independentemente de quem ganhe, nosso cenário já está horrível e difícil. Temos que resistir! Nas ruas, nas salas de aula, nos nossos trabalhos, temos que nos aproximar de quem luta junto com a gente, para nos fortalecer. Temos que nos aproximar de pessoas reais, por onde passamos e não ficarmos nos alimentando só das discussões nas redes sociais. O medo não pode nos paralisar.

Segundo, para as pessoas que estão em dúvida sobre em quem votar, eu peço com todo respeito, que considere votar no Haddad. Não estou falando com quem já está completamente decidido (pela razão distorcida que for) a votar no outro. Não me interessa conversar com essas pessoas, porque sei que não há espaço para conversa e debate. Estou falando com pessoas que realmente estão em dúvida, que estão lendo e buscando informações verdadeiras, análises, críticas. Votar em branco e anular é uma opção? Sim, e não vou enfiar o dedo na sua cara e dizer que você não pode anular. Ainda estamos em uma democracia. O que eu peço é que reconsidere. Que pense bastante nos próximos dias e veja se vale a pena apoiar um candidato que se apoia em ideias retrógradas, preconceituosas e extremamente violentas.

Termino aqui meu desabafo, me expondo bastante. Apesar de meu blog não ser nada na internet, hoje em dia parece que qualquer comentário contrário sobre o outro lá atrai pessoas prontas para vomitar agressividade. Mas escrevo mesmo assim, porque preciso escrever para não enlouquecer às vezes, e porque acho que a escrita é uma ferramenta importante. Espero que esse texto acalente o coração dos angustiados que estão ao meu lado. Espero que sirva para fazer os duvidosos pensarem um pouquinho mais.

Comentários sem argumentação, só com uma agressividade de graça não serão publicados. Estou aberta ao debate honesto e embasado, não à troca de deboches e agressividade.

 

PS: Uma dica de filme que talvez sirva muito para pensar nosso momento: “A Onda” (Die Welle), de 2008.

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